Ah, as misturas de peixes em aquários! Lindas, polêmicas, habilmente pensadas, descuidadas, impulsivas, intuitivas, ou seja, dezenas de formas pelas quais resolvemos juntar peixes e, ainda assim, por vezes, nos deparamos com situações em que uns não se dão bem com os outros.
Evidentemente, o título é apenas uma figura de linguagem, pois não há amizade ou inimizade dentre os peixes, tal como conhecemos na humanidade, mas tão somente o que podemos resumir como “compatibilidade”. Esta é a real temática do artigo.
Sem delongas, vamos ver o que tem pra hoje!
O que seria compatibilidade entre peixes?
Em aquários domésticos de água doce, de porte mediano, sem complicações maiores de outras naturezas, o segredo do sucesso é a compatibilidade. Essa palavra pode ser entendida como uma espécie de “paz” no dia a dia do aqua. Isso porque misturar as espécies erradas é receita certa para estresse, doenças e perdas.
“Espécies erradas, o que é isso?” Explico. Em um aquário doméstico de porte médio existem algumas misturas que eu evitaria e é justamente sobre isso que quero falar aqui. Não porque sejam impossíveis, erradas em todos os aspectos, como se a natureza cometesse erros, mas porque dentro do ambiente de aquário algumas espécies costumam gerar agressões, estresse, competição alimentar, incompatibilidade comportamental de convívio ou possuir preferências fisiológicas de parâmetros da água extremamente distintos.
Aí vem a pergunta: O que torna os peixes incompatíveis entre si?
A ideia que trago não é a de decorar combinações específicas, do tipo “não misture espécie A com espécie B”, mas sim partir de um princípio mais robusto que é “não misture peixes que divergem muito em tamanho, parâmetros da água, comportamento ou dieta”.
Assim, antes de trazer os exemplos para ilustrar, queria introduzir um pouco a temática. Eu destacaria os seguintes pontos:
- Agressividade. A natureza do peixe agressivo envolve um ímpeto de impor uma posição ou vontade por meio de confrontos, perseguições e combates (vias de fato). Para os peixes que não participam da mesma “vibe”, por sua vez, eles podem se ferir ou vir a se sentir em constante risco de ataques, o que ocasiona estresse e futuros enfraquecimentos a partir disso. Conhecer o currículo do peixe nesse aspecto talvez seja o mais importante dentre os pontos que levanto aqui.
- Tamanho. Este tópico pode ser facilmente confundido com agressividade, pois quando a diferença é considerável o maior frequentemente passa a enxergar o menor como potencial alimento; muitas vezes independe de o maior ser agressivo ou herbívoro. É algo natural, mais voltado a questão alimentar e à sobrevivência.
- Hábito Alimentar. Aqui você pode ter, pelo menos, duas grandes complicações, se não atentar para a questão: 1) peixes cujos hábitos alimentares sejam absolutamente distintos, ao ponto em que há dificuldade de alimentá-los com a ração apropriada (ex.: o herbívoro comendo muita proteína pode ter problemas fisiológicos e o carnívoro recebendo uma dieta inadequada, excessivamente rica em matéria vegetal, pode apresentar deficiências nutricionais); 2) um peixe é naturalmente a comida do outro.
- Comportamento e Temperamento. Nem todo conflito decorre de agressividade direta. Alguns peixes são excessivamente ativos, insistentes, territoriais ou mordiscadores de nadadeiras o que não implica falar de agressividade, mas tão somente de hábito comportamental. De pequenos danos em nadadeiras, que podem abrir portas para fungos e bactérias, ao estresse generalizado por importunação contínua, devemos conhecer o comportamento dos peixes a serem adquiridos.
- Parâmetros de Água. Quando o aquarista não observa os parâmetros ideais de cada espécie que possui e mistura peixes de ambientes completamente diferentes, sequer um “meio-termo” é suficiente para tornar o ambiente seguro a uma boa qualidade de vida. Há que conferir a que tipo de água o peixe, a ser adquirido, pertence.
A dica é uma só: conhecer as espécies e, se for misturá-las, fazer juntando peixes com similaridade de aspectos de agressividade, tamanho, hábito alimentar, comportamental e parâmetros de água.
Ilustrando a teoria
Incompatibilidade por tamanho. Se tomarmos como exemplo um Oscar (30-35 cm) e um Neon (3-4 cm), visualmente podemos perceber que o Neon cabe perfeitamente na boca do Oscar. Não é agressividade; é predação natural.

Incompatibilidade por hábito alimentar. Na imagem abaixo um Dimidiochromis compressiceps juvenil preda um Maylandia zebra juvenil. O exemplo foi proposital, pois também há que se considerar o tamanho, uma vez que não seria possível se ambos fossem adultos, mesmo o primeiro sendo piscívoro (naturalmente come peixes em sua dieta).

Incompatibilidade comportamental. O destaque que faço é sobre pequenos mordedores de barbatanas (Mato-grosso, barbo Sumatra etc.) com peixes de nado lento e de nadadeiras grandes (Betta, Kinguio, Guppy etc.). Poderia também citar de peixes muito agitados que inibem outros, como acontece com Discos quando se incomodam com peixes rápidos demais na hora da comida.

Parâmetros de Água Incompatíveis. Inserir num mesmo aquário um Apistogramma cacatuoides (ambiente amazônico) e Pseudotropheus demasoni POMBO (lago Malawi na África) é uma forma de agressão a ambos os peixes, pois qualquer meio-termo prejudica ambas as espécies, tamanha a diferença que apresentam para os parâmetros ideais de manutenção. Também optei por exemplo que engloba mais de uma incompatibilidade, uma vez que o CA é herbívoro (e muito agressivo) e o Apisto onívoro, mesmo sendo ambos ciclídeos anões – mais um bom exemplo de como precisamos conhecer cada espécie.

Adicionando Informação
Resolvi ainda separar 2 tópicos que, indiretamente, falam de incompatibilidade ou de formas de amenizar estilos dos peixes quando o ambiente os favorece:
- Comportamento Gregário e Adensamento Populacional. Quando o lojista expõe na vitrine que o preço da dúzia do neon é X, não é certo pensar que ele quer apenas induzir a venda. Neon é um peixe de cardume e 12 é um bom número para tê-los no aquário. Ter um peixe de cardume – seja neon, rodóstomo, corydora, disco etc. – sem uma quantidade adequada, já os deixa incompatíveis para quaisquer aquários. Manter espécies gregárias em números insuficientes compromete seu bem-estar e pode alterar seu comportamento natural. Por outro lado, alguns peixes melhoram seu “mau comportamento” quando os números de indivíduos de sua espécie são aumentados; é dito por alguns aquaristas que barbos e tetras concentram-se mais em seus próprios congêneres quando em maior número, deixando os outros peixes em paz. O alerta de adensamento populacional vem no sentido de você dimensionar corretamente o oxigênio dissolvido na água e os filtros do aquário, para manter a qualidade de vida.
- Espaço Livre. Acrescento este aspecto de forma secundária, mas não menos importante. É sabido que se o peixe tem espaço para exercer a contento sua existência, ele se estressa menos e isso reverbera sobre os demais colegas de aquário. Não é incomum observarmos mantenedores de Ciclídeos Africanos ou de Ciclídeos Jumbo, falarem em diluição/diminuição de agressividade por meio do tamanho do aquário. Entenda também este tópico como a correta ocupação de nichos (superfície, meia água e fundo, cavernas, troncos e fendas), pois quando os peixes possuem os espaços corretos para se “encaixarem” não precisam ficar disputando o espaço.
Como o objetivo deste artigo não é construir uma lista infinita de combinações proibidas, mas fornecer critérios para que o próprio aquarista avalie a compatibilidade entre espécies, prefiro encerrar por aqui.
Espero que o texto possa ajudar a você em algum aspecto das misturas de organismos que pretende fazer no seu aquário.
Muito obrigado pela leitura! Aguardo você no próximo artigo, que sai já já! Até lá!

Com Bravo de Bravura, e não de Braveza, Johnny Bravo (João Luís), escreve para revistas especializadas e para o blog da Sarlo há um cadim de tempo. Nessa jornada Julioverniana, após 20 Mil Léguas de textos, agora ele também desenvolve os roteiros para os vídeos de chamada do Sarlocast, onde você pode ouvir a sensual voz desse aquaman (tradução: homem de aquários).

