Andei escrevendo sobre grandes aquários de visitação e isso fez com que surgissem dúvidas do tipo “Que desafios tecnológicos e operacionais que esses aquários passam?”. Bem, até podemos tentar imaginar que há uma grande infraestrutura por detrás desses gigantes, mantendo-os em funcionamento pleno, mas o que especificamente existe em termos de estrutura e planejamento?

Isso é justamente o que trago hoje para vermos. Fui atrás do que existe de material referente aos aquários que mencionei nos artigos anteriores (Aquas de Visitação e Maiores Aquários do Mundo) e de lá extraí alguma informação.

Bora ver o que tem pra hoje! 😊

Tecnologia de Ponta

Sem dúvidas tenho de começar por aqui, pela tecnologia, porque o troço é forte. Tudo começa quando o visitante olha através do “vidro” do grande aquário e pode se maravilhar com o conteúdo vivo ali dentro; aqui entra a primeira tecnologia usada: na verdade se trata de um acrílico de alta resistência, com espessuras memoráveis (de até 75 cm no aqua de Dubai) e não vidro. Isso exige empresas de alta capacidade, visto que não é qualquer uma que consegue produzir algo assim, capaz de suportar enorme pressão da água e ainda ser transparente como cristal.

Obviamente não para por aí. Nos grandes aquários, a manutenção da água vai muito além de filtros e aquecedores comuns; existem os LSS (Life Support Systems – Sistemas de Suporte à Vida), que são complexos sistemas constituídos de equipamentos de última tecnologia, pessoal treinado e protocolos de ação.

Abaixo destaco alguns pontos de grande evidência dentro dos textos técnicos que li:

  1. Monitoramento por IA e Sensores Preditivos

O Georgia Aquarium, um dos maiores do mundo, tem parceria com uma plataforma chamada Tractian, que emprega sensores inteligentes e inteligência artificial para monitorar as 506 bombas de seu sistema. A inovação aqui é a manutenção preditiva: a IA detecta e interpreta situações anômalas (por exemplo: antes que uma bomba falhe) e ativa alarmes, evitando desastres nos ecossistemas ali mantidos (Fonte: Tractian Case Study – site em inglês).

Isso evoca o Conceito “Internet das Coisas (IoT)” para o Aquarismo, que é uso de protocolos como o MQTT (Message Queuing Telemetry Transport), que é o “idioma universal” para a IoT, levando as ordens de um celular para os equipamentos do aquário e trazendo de volta as informações dos sensores. Algo extremamente necessário para que o LSS envie alertas em tempo real aos técnicos, permitindo intervenções remotas ou presenciais em sistemas de iluminação, controle de parâmetros (tipo pH e temperatura) ou alimentação (Fonte: Repositório Institucional UERGS – Automação IoT em Aquários).

2. Oxidação por Ozônio (O3)

Diferente dos sistemas caseiros, grandes aquários utilizam Torres de Contato de Ozônio, que injetam esse gás na água, atuando como uma das partes mais significativas nos LSS. O ozônio é um oxidante poderoso (atua cerca de 6x mais rápido que o cloro), sendo capaz de eliminar patógenos e quebrar compostos orgânicos, os quais filtros de areia, por exemplo, não conseguem dar conta, garantindo não só a qualidade da água, mas também sua transparência cristalina. (Fonte: Georgia Aquarium STEAM Forward – documento em inglês, mas você pode usar o tradutor do Google).

3. Troca de Calor via Placas de Titânio

No Singapore Oceanarium, embora eu não o tenha elencado no artigo anterior, ele possui uma tecnologia de ponta para grandes volumes que é o controle de temperatura via trocadores de calor de Placas de Titânio, permitindo manter as temperaturas específicas de cada espécie. O titânio é usado porque é imune à corrosão da água salgada, permitindo resfriar ou aquecer volumes colossais de água com eficiência energética (Fonte: AECOM – Singapore Oceanarium Project – página em inglês).

4. Aeração e Circulação de Água

Tanques enormes precisam ser bombeados e manter a água em circulação por sistemas hidráulicos robustos com centenas de bombas de alta vazão conectadas por infindável tubulação. Isso mantém o oxigênio dissolvido em níveis ótimos e simula correntes naturais, essenciais tanto para a saúde da água quanto dos peixes e outros organismos.

Nem tudo dá para achar fotos, mas quando quiser imaginar algum equipamento desses aquas, tenha este Skimmer aqui como referência:

Redundância Sim!

Eu sempre recomendei que aquaristas, ao dimensionarem seus equipamentos, como filtros, aquecedores etc., usassem mais de um item, ao invés de apostar tudo num só equipamento. Por quê? Porque caso um falhe há a chance do outro continuar funcionando, dando tempo para o aquarista poder agir e salvar o sistema. E é tão real esse meu cuidado que podemos ver o mesmo – mas em dimensões incomparáveis – funcionando nos grandes aquas.

Como a falha não é uma opção para os grandes aquários, a redundância de sistemas essenciais é fundamental. “O que seria repetido?”, você se pergunta.

  1. A duplicação de bombas de circulação/filtragem para que, se uma falhar, outra assuma imediatamente.
  2. Sistemas operacionais para tomada de decisão. O Georgia Aquarium conta com uma rede de 24 computadores que tomam 150 milhões de decisões por segundo para ajustar válvulas e fluxos automaticamente (Fonte: OTL – Behind the LSS).
  3. Também no Georgia Aquarium existem mais de 4.500 pontos de alarme no software de controle, para que quando qualquer parâmetro sair do normal, técnicos recebam alertas em dispositivos móveis instantaneamente.
  4. Fontes de energia alternativas, sejam elas na forma de nobreaks, sejam elas como geradores a combustível ou alimentados por baterias para manter sistemas críticos (bombas, chillers, oxigenação) funcionando durante quedas de energia.
  5. Caminhos de filtragem redundantes, ou seja, sistemas paralelos de filtragem (mecânica, biológica e química) que permitem manutenção sem interromper a filtragem global.
  6. Drenos de emergência e bypass (desvios) manuais ou automáticos, os quais permitem desviar o fluxo em caso de obstruções ou sobrecarga de filtros principais.

Esses elementos fazem parte do conceito de LSS profissional em aquários públicos e zoológicos, onde continuidade operacional é tida como “crítica” à sobrevivência das espécies.

Protocolos de Emergência e Ação

Podemos facilmente perceber que, num empreendimento desses, ao se deparar com um alarme emitido pelo sistema ou diante de uma bomba quebrada, não há como marcar uma reunião para segunda-feira e decidir o que fazer, certo? Instituições, como estas que trago, exigem planos de resposta a emergência documentados, incluindo:

  • Procedimentos para troca rápida de bombas falhas;
  • Planos de contingência para surtos de amônia ou queda de oxigênio; e
  • Ações de redistribuição ou realocação de animais caso o suporte à vida esteja comprometido.

Mão-de-Obra Especializada

Sabendo que uma única falha global pode colocar em tudo risco, mesmo se valendo de automação para supervisionar e operar seus sistemas, os aquários não podem desconsiderar inspeções manuais especializadas, várias vezes ao dia, para detectar ou prever problemas. Essa abordagem é trabalhosa, necessitando de profissionais bem formados e capacitados.

A equipe não é composta apenas por biólogos, pelo contrário, ela necessita ser uma equipe multidisciplinar, composta também por engenheiros mecânicos, engenheiros químicos, mergulhadores de manutenção e técnicos diversos (automação, manutenção hidráulica, sensores filtros etc.). Claro, isso sem falar dos guias, dos amigos da limpeza, dos responsáveis pela educação ambiental, administradores, promotores de eventos…e por aí vai longe! (Fonte: Oceanário de Lisboa – Relatório de Sustentabilidade EMAS, aqui está em português de Portugal e podemos ver a diversidade e tamanho da equipe que faz o aquário funcionar).

Eu falei de forma resumidíssima, mas esses requisitos todos são parte da acreditação desses aquários diante das associações que padronizam zoológicos e aquários, servindo como referência prática e normativa para conquistarem selos de qualidade.

Com essas informações conseguimos visualizar não só o porte, mas a complexidade e os vultosos custos de manutenção. Sou daqueles que recomenda a visitação, para dar suporte aos bons empreendimentos, mas adianto que existem iniciativas mundo afora que não alcançam essa grandiosidade e se tornam lugares de aprisionamento e sofrimento de peixes e outros organismos. Tais lugares devem ser denunciados, não incentivados.

No mais, é isso. Encerro mais este artigo, já adiantando que logo logo teremos um novinho chegando por estas bandas. Obrigado pela leitura e espero você no próximo, até lá!

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