Como seria o papel dos aquários na conservação de espécies ameaçadas de extinção, em programas de reprodução em cativeiro e até mesmo para fins de repovoamento? Digo isso ainda num sentido menos institucional e mais próximo ao que hoje existe no hobby de aquarismo. Já pensou nisso? Eu já, muitas e muitas vezes. Acho válido pensar e expandir as ideias sobre esse tema e, por isso, resolvi trazer aqui uma porção de ideias e questionamentos para mais gente analisar, expandir e criticar.
Assim, no artigo de hoje, vamos retornar ao papel dos grandes aquários – que falamos noutro artigo – para lembrar e diminuir o porte até chegar em nós aquaristas, e pensar em como seria nosso papel, caso quiséssemos embarcar numa vertente de conservação.
Conservação Fora do Habitat Natural
A primeira coisa a ser dita é que conservação ex situ (fora do habitat natural) NÃO substitui a in situ (dentro do habitat natural). Nem no melhor dos mundos seria possível replicar tudo que um ambiente naturalmente equilibrado proveria aos seus habitantes (incluindo a gente); e falo desde as nuances dos nutrientes e estações do ano, das incidências solares, às peculiaridades da composição da micro e macrobiotas.
Nesse cenário, destaco a perda de biodiversidade impulsionada pela destruição de habitats devido à urbanização e ao desmatamento, a fragmentação de ecossistemas, o uso excessivo de recursos naturais por meio da caça, pesca e exploração ilegal, a introdução de espécies exóticas que desequilibram os ecossistemas e a poluição do ar, água e solo.

No combate a isso, hoje contamos com ampliação da fiscalização e criação de áreas protegidas e, fundamentalmente, as tentativas de mudança na consciência das pessoas, já que somos os agentes catalizadores – há uma interdependência entre todas as espécies e a preservação da vida no planeta.
Por outro lado, como reconhece a União Internacional para a Conservação da Natureza – IUCN, a crise da biodiversidade atingiu um nível em que estratégias tradicionais de conservação exclusivamente in situ já não são suficientes. Além do que as instituições de conservação ex situ (centros de pesquisa, aquas de visitação e zoológicos) já oferecem para manter populações de certas espécies viáveis, quando a sobrevivência imediata no ambiente natural é inviável, o que mais é possível? São elas capazes de dar suporte e evitar a extinção de todas as espécies de peixes?
Se faltam recursos para locais que mantém e expõem animais com apelo visual (“fofofauna”, como leões, girafas, araras, macacos etc.), imagina para seres minúsculos e “sem cor” que só nós aquaristas gostamos? Sei que a fofofauna serve como um guarda-chuva para uma preservação maior, ou seja, preservando-a e o seu habitat, muitas outras são beneficiadas; mas e quando isso não acontece? Quando não há quem garanta a preservação de um córrego ou poça de água (habitats de Apistos e Killifishes), o certo é esperar os responsáveis serem sensibilizados e os recursos começarem a ser voltados para tais espécies? E se não houver isso, ficaremos vendo os peixes serem extintos?
É ou Noé Possível?
A analogia que faço do “Aquário como uma Arca de Noé Moderna” traz a imagem de um só homem, inspirado divinamente, “fazendo acontecer” em seus tempos em prol da natureza. Ela reflete a ideia de uma mudança profunda na missão das instituições, hoje autorizadas a fazer conservação ex situ, passando de simples locais de exibição, pesquisa e informação para centros estratégicos de divulgação de informação, manutenção de pools genéticos saudáveis e de intercâmbios variados (conhecimento, espécimes etc.), incluindo abranger o que hoje é renegado, como criadores conservacionistas individuais ou em pequenos grupos autônomos para peixes ornamentais em perigo de extinção. No caso, falo do Brasil, pois não conheço a legislação fora daqui.
Para tanto, é necessário o desenvolvimento de pilares que vão muito além da técnica científico-empírica de manutenção de aquários que alguns de nós possuem.
Os pontos de justificativa são simples:
- Com mais pontos de criação e manutenção haveria um aumento da capacidade coletiva de resposta às ameaças. E não necessariamente os resultados serão os de reverter a extinção na natureza, pois muitas vezes veremos o ambiente natural ser completamente suprimido; então, o propósito se torna apenas o de evitar a extinção daquele organismo vivo, cujos ancestrais demoraram milhões de anos para levarem àquele resultado evolutivo. Acho nobre salvar uma espécie.
- Alteração do propósito do aquarista vinculado, cujo objetivo não será apenas manter indivíduos vivos para seu deleite pessoal.
- Criação e fortalecimento de uma rede de troca de conhecimento e espécimes.
- Mudança definitiva da imagem que ainda muitas pessoas têm sobre os aquários serem apenas locais de aprisionamento e exposição de animais e plantas.
Certamente, uma iniciativa dessas não aparece da noite para o dia, exigiria tempo, dedicação, organização e vontade política. Precisaria ser tal qual uma capacitação prévia para que surgissem candidatos aptos a prestar um serviço de Criador Conservacionista, seja numa disposição solo, seja em grupos (organizações de aquaristas).
O Que Exige o Perfil Conservacionista?
Mínima e formalmente, antevejo uma série de normas e protocolos a serem seguidos rigorosamente. Caso regulamentações oficiais permitissem esse status e parceria, imagino que elementos fundamentais se dariam (de forma muito resumida) por aqui:
1. Rigor no Registro e Rastreabilidade (Livro de Linhagem)
Além de um cadastro minucioso dos interessados, discriminando a capacidade estrutural e dados pessoais possíveis de acompanhamento e validação, servindo também para emissão de autorizações de manutenção ou coleta de exemplares de determinada espécie. O criador precisa deixar de lado a casualidade do hobby e atuar como um pesquisador de campo.
Vejo que para a conservação ex-situ, um peixe sem origem documentada tem valor científico quase nulo. É necessário saber a procedência dos exemplares/matrizes, dissociando de qualquer infringimento de leis; saber quem são os pais de cada ninhada, para evitar a consanguinidade, assim como o controle de qual localidade o peixe veio representa um pilar básico e de extrema importância. A variabilidade genética é fundamental para a viabilidade de uma população, pois também se mata uma população inteira por endogamia (cruzamento de indivíduos com parentesco muito próximo).

2. Ética de Preservação Versus Estética
O aquarismo comercial foca em cores vibrantes e nadadeiras longas. O aquarismo conservacionista não se presta a selecionar mutações “bonitas”, mas sim a manter as características morfológicas e comportamentais originais da espécie, ou seja, foca no tipo selvagem, evitando quaisquer chances de gerar híbridos, que não podem ser usados em repovoamentos futuros, por exemplo, pois geram espécies exóticas (para efeitos práticos de entendimento).
3. Biossegurança e Protocolos Sanitários
A introdução de patógenos de aquário na natureza é um risco real. Para tanto, o estabelecimento de quarentenas rigorosas e protocolos de descarte de água e resíduos é requerido.
4. Ciência Cidadã e Monitoramento de Dados
Isso se reflete na coleta sistemática de dados: parâmetros da água (TºC, pH, dH, condutividade), taxa de eclosão, tempo de desenvolvimento e comportamento reprodutivo e tudo mais que fizer jus a gerar informação para o sistema de intercâmbio. Certamente um padrão mínimo precisaria ser elaborado para que todos colaborassem.
5. Estrutura de “Backup” e Cooperação em Rede
O modelo “Arca de Noé” moderno não funcionaria com uma pessoa isolada, mas com uma rede. Não importa se ele partiu numa iniciativa solo, pois ele não estará isolado e isento de corresponsabilidades, ele pertencerá a um coletivo maior com o qual precisa colaborar e do qual terá o direito de receber colaborações. O criador deve estar disposto a compartilhar informações e indivíduos sob sua tutoria com outros criadores credenciados e instituições públicas. Pense como isso é útil e necessário: se um aquarista perde seus tanques por uma queda de energia ou doença, a linhagem daquela espécie vulnerável sobrevive nos tanques de outro parceiro da rede. É a diluição do risco.
Certamente existem outros pontos a considerar, mas aqui me restrinjo apenas a acender o pavio. Considerando que o Brasil possui a maior biodiversidade de peixes de água doce do mundo e muitas espécies de “micro-habitats”, que mal interessam o senso comum das pessoas neste mundo (ficando restritas ao nosso “amadorismo aquarístico”), o estabelecimento de uma Normativa de Criador Conservacionista, voltada a expandir os conceitos e participantes, poderia salvar centenas de espécies da extinção (algumas antes mesmo de serem descritas), utilizando a infraestrutura e a paixão que já existem nos lares de milhares de aquaristas sérios. Isso criaria uma “Malha Fina de Conservação”, onde o Estado supervisiona e a sociedade civil executa a manutenção da vida.
E para você, uma ideia assim parece só um completo absurdo ou, desde que bem estruturada, é sim uma alternativa?
Bom, espero que o texto possa lhe render alguns bons pensamentos e ideias. Todos somos importantes para o bem deste mundo. Sigamos fazendo o bem!
Agradeço a leitura e espero você no próximo artigo, que vem já já! Até lá!

Com Bravo de Bravura, e não de Braveza, Johnny Bravo (João Luís), escreve para revistas especializadas e para o blog da Sarlo há um cadim de tempo. Nessa jornada Julioverniana, após 20 Mil Léguas de textos, agora ele também desenvolve os roteiros para os vídeos de chamada do Sarlocast, onde você pode ouvir a sensual voz desse aquaman (tradução: homem de aquários).







