Eu acredito no conhecimento como algo libertador, por outro lado, não acredito em fórmulas prontas e infalíveis capazes de levar algo ao entendimento de todas as pessoas de uma só vez e de um só jeito. Somos diferentes uns dos outros e, dessa forma, aprendemos de formas e em tempos diferentes. Assim, em meus textos costumo trazer ideias, questionamentos e informação procurando alimentar um ambiente de constante atualização, pois sei que todos que se dedicam a algo têm algo a contribuir.

Então, baseado no título, lanço uma pergunta para começar: Por que “conhecer” seria o primeiro passo para preservar? Para responder, uso outra pergunta: Como protejo algo que não conheço ou não compreendo?
Mais uma: “Aquários são apenas objetos para exposição, estética ou entretenimento?” Independentemente da resposta, o intuito do artigo será ir além e refletir sobre como o contato contínuo com a vida aquática pode transformar a forma como percebemos a natureza.

Enquanto você vai pensando, deixe-me apresentar o que tem pra hoje. Antes de continuar, reforço que é minha forma de ver e não se trata de imposição de conceitos, são ideias para reflexão.

Nascimento do Vínculo

Já é reconhecido – por quem anda pelos caminhos da Educação Ambiental – que a própria “conservação ambiental” faz mais sentido quando está diretamente ligada ao conhecimento, ou até melhor, à experienciação; ou seja, as pessoas tendem a valorizar e proteger aquilo com o qual conseguem criar algum tipo de vínculo emocional ou intelectual; isso aumenta significativamente a retenção do conhecimento e a sensibilização ambiental, especialmente entre crianças e jovens.

Em sentido oposto e geral, o ser humano, quanto mais adentra no dia a dia impiedoso, onde ninguém tem tempo para nada, e o universo passa a ser o concreto, o metal e os vidros, e no “lazer” os vídeos curtos superficiais, mais se distancia da natureza e de quaisquer vínculos com qualquer coisa.

Agora, se não somos seres aquáticos, não vivemos dentro ou a beira d’água, como criar vínculo? Os ecossistemas aquáticos, sobretudo os de água doce, são muitas vezes invisíveis ao cotidiano urbano, pois a água que lidamos diariamente é a que sai da torneira. E mais, água doce, muitas vezes na forma de lagos, poças ou riachos sequer carregam apelos emocionais, nem geram aquelas comoções amplas de preservação por não possuírem beleza cênica ou empatia suficientes. Não é como os mares ou grandes rios, que já possuem naturalmente uma forma de acionar o senso ou a necessidade voltados à preservação.

Assim, considerando essas lacunas que mencionei, acredito que os aquários cumprem (podem cumprir) exatamente esse papel: tornar visível o invisível, dar contato ao intangível. Ao não só observar, mas fazer parte da estabilidade de um ecossistema aquático funcional, com peixes, plantas, interações e comportamentos naturais, o aquarista passa a perceber seu aquário como um ambiente vivo e complexo, não como item pura e simplesmente de decoração.

A proposta de reaproximação e criação de vínculo aqui trazida se volta a levar aquaristas a se interessar pelo que existe na natureza, e não de modificá-la, e deixar pender mais para o lado natural que para o puro entretenimento (escafandristas, navios etc.). “Mas esse outro lado está errado? É ofensivo?” De forma alguma, todo hobby feito com responsabilidade é válido, tudo aqui se trata apenas de dar foco numa proposta específica.

Por outro lado, de forma alguma eu acho que qualquer aquário serve ao propósito de ajudar peixes e outros organismos, pois com uma sensibilidade minimamente ativada podemos ver quantas tragédias anunciadas estão por aí, no vizinho, na internet e em algumas lojas. Mas esses casos extremos nem entram no nosso papo aqui, porque o foco está em quem busca aprender e cuidar. A meu ver, ainda facilita quando a tendência vai para aquários-biótopo, que é uma representação fiel de um bioma, com regras próprias.

“Mas para eu criar um vínculo desses, precisa ser biótopo?” Não, não precisa. Quando falo dos biótopos, é apenas no sentido de aprimorar o senso ambiental natural, seria um filtro fino, digamos assim, para pessoas que comecem a gerar um interesse em se atentar para o viés da preservação. Quando misturamos peixes de todos os ambientes, comportamentos, pHs, dietas etc. distanciamos um pouco da ideia que trago. Ainda assim, em nenhum momento estou classificando como certo ou errado, bom ou ruim, melhor ou pior; trata-se apenas de uma ideia conceitual, que muitos aquaristas já enveredam há tempos.

Do encantamento à responsabilidade: o fortalecimento do vínculo

Este tópico já começa desmistificando qualquer dúvida que também possa existir sobre “se eu acho importante o aquário possuir estética agradável, ao próprio aquarista e às pessoas que vierem a vê-lo”, já que eu relativizei o entretenimento. Com certeza que sim! O aquário tendo a aparência agradável ou possuindo alguma qualidade chamativa, serve para gerar o encantamento. Seria o equivalente ao apelo visual da fofofauna (“o gracioso urso panda”, o “dourado mico-leão”, a “maravilhosa onça pintada”). É a primeira fisgada, embora não se traduza como um requerimento para se fazer bem-feito. E mais um detalhe importante: acredito que entreter-se com seu aquário, sentir-se bem diante dele, cuidando dele, é possivelmente o mais desejado atributo do aquarista; sempre tem de ter o viés do hobby, misturado a sua missão.

Voltando ao fortalecimento do vínculo. No início, é comum ao aquarista enxergar o aquário como um objeto. Caso ele não se perca no ritmo frenético do dia a dia e consiga criar em si mesmo a proposta de ali dispender um tempo (de qualidade), com o passar dos “dias” ele percebe que não está diante de algo estático, mas de um sistema vivo, sensível a erros e escolhas – uma alimentação em excesso compromete a qualidade da água; a ausência de plantas compromete o equilíbrio; e por aí vai.

No entanto, é justamente nessa relação cotidiana e progressiva que se constrói um dos processos mais eficazes de educação ambiental, no qual o aprendizado chega pela responsabilidade e pela observação contínua da vida. E é nesse compromisso que o discurso ambiental deixa de ser abstrato.

Esse processo gera uma mudança fundamental, que é a do aquarista deixar de ter um aquário e passar a cuidar de um ecossistema, ser responsável por ele, ou seja, transforma o simples e imediato objeto do possuir e o transforma num momento, numa vivência. Ao clamar de seu tutor a atenção, a observação, a paciência e o aprimoramento cotidianos, o vínculo é criado. Ele se traduz na empatia com organismos que não se comunicam verbalmente, nem costumam acessar o sistema límbico (que regula emoções) dos humanos.

É nesse ponto do trajeto que nasce outra pergunta essencial, mesmo que não expressa em palavras ou escrita: “O que eu faço aqui?” e, logo depois, “Por que isso funciona assim?” A cada pergunta respondida, amplia-se o aprendizado e, consequentemente, sua qualificação e capacidade de atuar com preservação.

E o que ensina um aquário?

Se você é pai ou mãe, pense aí consigo, como um aquário pode atuar como uma escola, gerando aprendizado e sensibilidade ambientais; puxei o exemplo para crianças, mas mesmo nós aquaristas do jurássico aprendemos a cada dia, pois nunca acaba o maravilhamento e o conhecimento. Em itens, separei uns exemplos, mas deixei muitos “etc.” para lembrar que não acaba fácil assim:

  • Aprendizado visual e sensorial (estilo do aquário como o ambiente de um rio ou lago; coloridos dos peixes, plantas e ornamentos naturais, água quentinha ou fria, nichos específicos como planta flutuante para a espécie x, folha caída no substrato para z e caverna para a y etc.);
  • Observação direta de espécies e comportamentos (territorialismo, métodos de reprodução, estágios do crescimento etc.);
  • Fotossíntese e jardinagem submersas (uso de CO2, iluminação, substrato fértil, crescimento, podas etc.);
  • Nutrição (diferentes peixes, diferentes comidas; melhoria da coloração e crescimento; comida congelada, em natura, floculada etc.);
  • Compreensão de ciclos ecológicos (cadeia alimentar, reprodução, simbiose, aprende que resíduos orgânicos não desaparecem, apenas se transformam etc.);
  • Parâmetros físico-químicos da água (temperatura, elementos e compostos químicos, pH, KH, GH, que trazem a percepção de que a água não é se resume a ser “limpa” ou “suja”, mas que é quimicamente complexa etc.);
  • Assepsia e doenças (tipos de doenças, contágio, formas de tratamento, ampliando a visão de que qualidade ambiental e saúde estão diretamente ligadas etc.);
  • Matemática: cálculo do volume do aquário (volume real e volume bruto) ou do seu peso; dimensionamento de filtros ou de população do aquário etc.

Em pouco tempo dessa formação “aquadêmica”, o aquarista percebe que não dá para aprender sozinho; ele busca informação, se envolve nos ambientes que discutem o tema, compartilha e quando percebe, já está explicando e orientando; minando os mitos do tipo “peixe cresce conforme o tamanho do aquário”, “peixe morre fácil” ou “plantas só servem para decorar”.

Na leveza do aquarismo, esses aprendizados não vêm por imposição, mas por consequência direta do contato. O que, secundariamente, pode virar uma reflexão sobre impactos humanos nos ambientes aquáticos, considerando o aquário um espelho dos ecossistemas naturais. Com o tempo, torna-se impossível cuidar de um aquário sem fazer paralelos com a natureza (folhas secas não são sujeira, troncos alteram a química da água, nem toda água cristalina é biologicamente saudável); ou impossível de não se sentir parte, percebendo que “a natureza responde às nossas ações”, que “o descuido cobra seu preço” e, logicamente, que “preservar exige conhecimento, tempo e respeito”.

À medida que o vínculo se fortalece, o aquarista passa a observar o ambiente externo com outros olhos, pois já vivenciou, em escala reduzida, o significado do grande mundo. E quando se percebe não só como parte integrante, mas também como responsável pelo equilíbrio do ecossistema, ao expandir a reflexão para o contexto da casa, da cidade, do país e do mundo, estará também se formando como cidadão. É quando o aquário estará cumprindo sua função não meramente informativa, mas sim formativa, tornando o aquarista um agente de conscientização.

Bem, é mais ou menos isso o que chamo de “aquarismo responsável” e é o caminho que me dedico como posso. Nele, conhecer é criar vínculo e preservar é assumir responsabilidade, e assim, cada aquário bem cuidado é uma potencial mudança de olhar, de preparo, nada abstratos.

E por aqui finalizo mais um texto, o qual espero ter trazido algo para você e sua experiência aquarística. Obrigado pela leitura! Vamo que vamo! Nos vemos no próximo artigo, que sai já já.

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