Você pode até não perceber, mas peixes conversam entre si. Raros têm alguma vocalização, mas a maioria deles se comunica de outras formas, diferentes formas de comunicação – visuais, químicas, elétricas e comportamentais – que variam conforme a espécie.
No artigo de hoje, trago informações e dicas para decifrar alguns códigos ocultos por trás das cores vibrantes, das posturas corporais e das disputas territoriais usadas pelos peixes durante a reprodução.
Bora ver o que tem pra hoje!
Comportamento como forma de comunicação
Nem toda comunicação envolve sons. Cores, movimentos, posturas, perseguições e ocupação do espaço também carregam informação. E é para isso que estou aqui, para reavivar a ideia de que o aquarista frequentemente observa o comportamento, mas nem sempre compreende o que está vendo.
Para falar de uma maneira fácil para todos, separei alguns comportamentos e coisas observáveis em nossos aquários, especialmente ligadas à reprodução, criando diferentes narrativas onde pensei em frases humanizadas que poderiam ser ditas por peixes para que nós entendêssemos sua comunicação. E todo esse esforço tem um objetivo: estimular nos aquaristas uma observação mais apurada e uma compreensão mais profunda dos comportamentos exibidos pelos peixes.
1. Acará-bandeira

No Acará-bandeira (Pterophyllum scalare), a comunicação durante a reprodução começa muito antes da postura. A formação do casal é acompanhada pela escolha de um território que consideram adequado e que passa a ser defendido contra outros indivíduos. Folhas largas, troncos, superfícies verticais ou outras estruturas podem ser selecionados como local de desova, e o casal passa a deixar cada vez mais evidente que aquele espaço tem dono. É como se dissessem: “Não se aproxime! Este lugar é meu!”.
Essa mensagem não depende necessariamente de uma mordida ou de um confronto físico. Muitas vezes, o próprio corpo funciona como aviso. Durante as disputas territoriais, os acarás-bandeira podem modificar sua postura, abrir amplamente as nadadeiras, posicionar-se de lado, inclinar o corpo e encarar o adversário, tornando-se visualmente maiores e mais imponentes. Quando indivíduos disputam espaço, podem ocorrer aproximações, investidas e perseguições; mesmo parecendo intensos, tais confrontos não necessariamente terminam em combate físico grave. A exibição corporal e a insistência na perseguição frequentemente são suficientes para estabelecer quem permanecerá no território. É nesse contexto – de abrir as nadadeiras, inclinar o corpo e mostrar-se agressivo – que a linguagem corporal comunica sobre manter distância, dominância e disposição para defender aquele espaço.
Quando o casal finalmente escolhe a superfície de desova, ganha ainda mais importância; chega a um novo patamar, eu diria. A área passa a ser defendida com maior determinação, pois agora existe algo concreto a proteger: a futura postura. Depois que os ovos são depositados, porém, a mesma territorialidade muda de função. Já não se trata apenas de garantir um espaço para o casal e sim de impedir que outros peixes se aproximem dos ovos e, posteriormente, das larvas – alvos de peixes oportunistas. O território deixa de ser somente “nosso lugar” e passa a ser “nossa prole”. É justamente por isso que territorialidade não deve ser confundida simplesmente com agressividade. Ela é um comportamento de comunicação e defesa que pode ser intensificado pela reprodução e que, ao longo do processo, muda de objetivo.
2. Iriatherina

Enquanto o acará-bandeira fala “mantenha distância”, o macho de Iriatherina (Iriatherina werneri) parece dizer exatamente o contrário: “Olhe bem para mim! Sou eu quem você procura!”. Digo isso porque o cortejo é uma verdadeira exibição visual, onde o macho se aproxima da fêmea, afasta-se e volta a se posicionar diante dela, utilizando o próprio corpo e, principalmente, suas nadadeiras extraordinariamente alongadas como elementos de comunicação. As nadadeiras pélvicas, dorsais e anal são abertas e exibidas, aumentando sua silhueta e tornando o indivíduo muito mais vistoso.
O macho pode tremer ou vibrar o corpo e as nadadeiras, realizar movimentos laterais diante da fêmea. É uma sequência de movimentos que chama a atenção para suas características físicas e para sua disposição reprodutiva. Em termos de comportamento, é uma espécie de anúncio visual que informa: “Estou saudável, estou pronto para reproduzir.” Na natureza, as cores nos machos podem mostrar à fêmea que ele é hábil e competente em arrumar recursos e se manter combativo, comprovando para ela que os genes que ele possui representam uma boa herança genética para a futura prole. Do outro ponto de vista, quando você vir dois machos fazendo esse display um para o outro, pense que devem estar dizendo algo parecido com “Olha como sou mais bonito!” e o outro respondendo “Né não, olha direito e veja como sou mais!”; isso repetidamente, inúmeras vezes, só que interessa mesmo à fêmea, que é quem escolherá.
Quando a fêmea responde positivamente, o cortejo pode conduzir o casal até uma área de vegetação fina ou outro substrato adequado, onde os ovos serão depositados. A reprodução ocorre por pequenos eventos de desova, com os ovos sendo aderidos à vegetação ou a materiais semelhantes. O macho pode cortejar mais de uma fêmea e, em condições favoráveis, o comportamento reprodutivo pode ocorrer repetidamente.
3. Kribensis

Para não ficar a impressão de que é sempre nos machos que estão as cores e os comportamentos notórios – porque não é – lembro que na fêmea de Kribensis (Pelvicachromis pulcher), o comportamento reprodutivo assume uma característica particularmente interessante, porque além dela participar ativamente da preparação e da defesa do local de reprodução, a colorida da história é ela. Em vez de simplesmente acompanhar o macho, a fêmea pode inspecionar e preparar o abrigo, utilizando cavidades, tocas e outros espaços protegidos para a desova. Sua comunicação com o parceiro envolve postura corporal, coloração e aproximações que fazem parte da dinâmica entre os dois indivíduos.
Se pudéssemos transformar essa linguagem em palavras, talvez ela dissesse: “Venha. O ninho está pronto.”. A frase também combina com a dinâmica do casal porque, nessa espécie, a reprodução não termina na escolha do parceiro ou na deposição dos ovos. O abrigo torna-se o centro de uma atividade conjunta, e a presença do casal passa a estar diretamente relacionada à proteção da futura prole. A fêmea pode assumir uma postura mais ativa na defesa do espaço, enquanto macho e fêmea coordenam seus comportamentos ao redor do local escolhido. O que parece, à primeira vista, apenas uma mudança de coloração ou uma sequência de movimentos é, portanto, parte de uma comunicação bastante precisa entre os parceiros.
Há também um certo contraste interessante nessa comunicação. A fêmea pode estar atraindo o parceiro e, ao mesmo tempo, demonstrando que aquele espaço deve ser respeitado. Por isso, a outra possível tradução – “Se é para ficar comigo, prove que é digno.” – combina com o comportamento de uma espécie em que reprodução, território e cuidado parental estão fortemente interligados. O convite para a reprodução não significa ausência de conflito; significa que o conflito passou a ter um objetivo: garantir as condições necessárias para que aquela parceria produza e proteja sua descendência. Isso lembra muito o que comentei sobre o acará-bandeira (outro ciclídeo, como este aqui), mas que difere num território menor e no magnífico fato da fêmea mostrar em cores o momento da reprodução.
Exemplos são inúmeros, poderíamos continuar aqui por horas que não esgotaríamos o assunto. Tipo, o Betta (Betta splendens), ao construir seu ninho de bolhas, estaria dizendo à fêmea “Veja o que eu tenho para lhe oferecer.” ou “Este é o meu cafofo, o futuro da nossa família começa aqui.”.

Do meu ponto de vista, aprender a decifrar essas pistas transforma completamente a experiência de manter um aquário, onde deixamos de ser meros espectadores para nos tornarmos parceiros atentos e conscientes. Quando nos dedicamos a uma observação cuidadosa e carinhosa, percebemos que a conversa entre os peixes também nos dá sinais valiosos. Uma mudança sutil na orientação das nadadeiras, uma perda de apetite ou um ganho temporário de vivacidade nas cores são recados diretos para quem aprendeu a ler a linguagem aquática.
Tornar-se um bom observador traz vantagens que vão muito além de um aquário bonito. Essa postura treina nossa paciência, apura a nossa empatia e nos conecta de forma prática à preservação da vida. O bom aquarista é aquele que entende seu papel de guardião: alguém que não apenas aprecia o ecossistema que montou, mas que atua ativamente para garantir que seus habitantes expressem sua verdadeira essência com plenitude e bem-estar.
Por outro lado, ignorar as necessidades biológicas e comportamentais básicas das espécies mantidas é um erro que pode vir com consequências graves. Um aquário sem os parâmetros adequados de água, sem o espaço necessário para a territorialidade ou desprovido de refúgios essenciais gera um estado constante de estresse crônico nos peixes. Sob essa tensão invisível, a comunicação natural se quebra: os displays de cortejo desaparecem, a dominância se transforma em agressão física letal e o sistema imunológico dos animais entra em colapso, abrindo portas para doenças perfeitamente evitáveis.
E você, já conversou com seu peixe hoje? Vai lá, dá uma moral para ele.
Agradeço a leitura, esperando ter trazido alguma reflexão útil para a prática do hobby. Aguardo você no próximo artigo, que sai já já! Até lá!

Com Bravo de Bravura, e não de Braveza, Johnny Bravo (João Luís), escreve para revistas especializadas e para o blog da Sarlo há um cadim de tempo. Nessa jornada Julioverniana, após 20 Mil Léguas de textos, agora ele também desenvolve os roteiros para os vídeos de chamada do Sarlocast, onde você pode ouvir a sensual voz desse aquaman (tradução: homem de aquários).







