“Como se identificam machos e fêmeas em diferentes espécies de peixes ornamentais?”, muita gente se pergunta. Alguns têm ideias, outros tantos não sabem sequer que peixes se diferenciam fisicamente em machos e fêmeas. Na infância eu era fascinado quando descobria essas diferenças e com o tempo fui aprendendo.
Em algumas espécies isso é mais fácil do que em outras e será justamente nas mais fáceis que iremos nos debruçar aqui, para ajudar a fixar o assunto, até porque dimorfismo significa “a condição de existir em duas formas distintas (do grego di = dois, morfhe = forma)”.
E aí, bora ver o que tem pra hoje? Vamos lá!
O que é dimorfismo sexual?
Dimorfismo sexual é o conjunto de diferenças físicas existentes entre machos e fêmeas de uma mesma espécie, as quais podem incluir: tamanho corporal, coloração, formato do corpo ou presença/surgimento de estruturas específicas (como barbatanas alongadas ou modificadas, corcovas/calos nucais etc.).
“Mas por que a natureza produziria machos e fêmeas tão diferentes? Que vantagens pode haver nisso?” A resposta está na própria dinâmica da reprodução. Ao longo de milhões de anos, a seleção natural e a seleção sexual favoreceram características capazes de aumentar as chances de sobrevivência e de sucesso reprodutivo. Enquanto muitos machos direcionam parte de sua energia para a disputa por parceiros, a defesa de territórios ou a exibição de características capazes de atrair as fêmeas, estas frequentemente precisam investir uma quantidade maior de recursos na produção dos ovos.
Essa diferença de investimento reprodutivo ajuda a explicar por que, em muitas espécies, machos e fêmeas estão sujeitos a diferentes pressões de seleção.
E há um detalhe importante: nem todo dimorfismo é evidente desde o nascimento. Em muitas espécies, machos e fêmeas são praticamente indistinguíveis enquanto jovens, e as diferenças surgem ou se tornam mais acentuadas com o crescimento, a maturidade sexual ou a própria condição reprodutiva.
Alguns exemplos de peixes ornamentais com dimorfismo sexual
Fiz algumas imagens com ajuda de IA para ilustrar o dimorfismo sexual nas espécies que escolhi – todas apresentam características relativamente fáceis de observar. Como sempre, lembro que tais imagens de IA servem apenas como referências, não como referências para identificação em si.
Pseudotropheus saulosi
Além de lindo, um dos meus preferidos dentre os ciclídeos africanos do lago Malawi, o Pseudotropheus saulosi é um dos exemplos mais fáceis de reconhecer.
Os machos adultos e dominantes apresentam coloração azul intensa, atravessada por faixas verticais escuras. Além disso, costumam desenvolver um comportamento territorial bastante acentuado, especialmente em relação a indivíduos da mesma espécie.
As fêmeas, por sua vez, possuem coloração predominantemente amarela, que também é compartilhada pelos juvenis. Essa diferença é tão marcante que muitos aquaristas iniciantes acreditam estar observando espécies distintas.

Pelvicachromis pulcher
Conhecido como kribensis, o Pelvicachromis pulcher apresenta um dimorfismo sexual incomum, uma vez que nesta espécie são as fêmeas – menores e mais compactas – que chamam a atenção pela intensa coloração avermelhada ou arroxeada da região abdominal, que se torna ainda mais evidente durante o período reprodutivo.
Os machos são maiores, possuem o corpo mais alongado e exibem nadadeiras dorsal e caudal mais desenvolvidas, esta podendo até mesmo ser lanceolada (em forma de lança).

Apistogramma cacatuoides
No Apisto Cacatua, os machos são bem maiores, apresentando as nadadeiras dorsal e caudal bastante ornamentadas, com cores mais intensas e manchas vermelhas, alaranjadas ou amarelas.
As fêmeas possuem tamanho reduzido, nadadeiras mais curtas e uma coloração predominantemente amarelada, que se intensifica durante a reprodução. Nesse período, elas assumem o papel de guardiãs dos ovos e das larvas, defendendo o território com extrema determinação.

Xiphophorus maculatus
Os populares platis (Xiphophorus maculatus) apresentam diferenças menos chamativas, mas igualmente importantes.
Os machos são menores – embora isso seja relativo, pois na hora da compra, podemos encontrar peixes de idades diferentes apresentando tamanhos semelhantes – e possuem uma estrutura chamada gonopódio (existente na família dos Poecilídeos), que é uma modificação da nadadeira anal, utilizada para a fecundação interna. Esta é a melhor característica visual que permite diferenciar os sexos.
As fêmeas apresentam o abdômen mais volumoso (outra informação que precisa de um olho mais treinado), especialmente durante a gestação, além de uma nadadeira anal em formato triangular.

Xiphophorus hellerii
Para o espadinha (Xiphophorus hellerii), parente próximo do plati, o dimorfismo sexual é bem mais evidente. Além do já mencionado gonopódio, os machos apresentam o característico prolongamento da parte inferior da nadadeira caudal, formando uma estrutura semelhante a uma espada, responsável pelo nome popular da espécie.
As fêmeas não possuem essa extensão e apresentam um corpo mais robusto e arredondado.

Trichogaster lalius
A colisa lália (Trichogaster lalius) apresenta um dimorfismo sexual muito comum entre diversos representantes da família Osphronemidae (família que inclui bettas, tricogásteres e peixes-paraíso), onde os machos exibem cores muito mais intensas, com padrões metálicos azulados e avermelhados distribuídos pelo corpo. A nadadeira dorsal também costuma ser mais longa e pontiaguda.
As fêmeas possuem coloração mais discreta, geralmente em tons prateados ou acastanhados, além de uma nadadeira dorsal mais curta e arredondada.

Cyrtocara moorii
O famoso golfinho do Malawi (Cyrtocara moorii) apresenta um dimorfismo sexual mais elegante.
Os machos geralmente atingem tamanhos maiores e, além da cor mais viva, desenvolvem uma protuberância frontal mais pronunciada, conhecida como corcova nucal, tal qual um chapéu de gala – embora o tamanho dessa estrutura possa variar entre indivíduos.
As fêmeas tendem a ser menores e apresentam uma testa menos desenvolvida.

Obviamente não há artigo ou livro capaz de apresentar todas as diferenças morfológicas existentes nas espécies de peixes. Aqui o intuito foi trazer características que você pode passar a buscar nos seus peixes, para descobrir se determinado peixe é macho ou fêmea.
Para mim, conhecer o dimorfismo sexual não é apenas uma curiosidade para quem gosta de observar peixes ornamentais. Saber reconhecer machos e fêmeas é uma ferramenta importante para compreender o comportamento, a formação de casais, o territorialismo, as estratégias reprodutivas de cada espécie e tantas outras coisas mais. No aquário, essa percepção pode fazer toda a diferença, uma vez que permite escolher corretamente os indivíduos para formar um grupo reprodutivo, compreender disputas territoriais, identificar mudanças que acompanham o período de reprodução e oferecer condições mais adequadas para que o comportamento natural dos peixes se manifeste.
E é justamente aí que a reprodução em cativeiro começa a ganhar um significado especial. Reproduzir peixes ornamentais de forma responsável deixa de ser simplesmente produzir mais animais e passa a possibilitar que comportamentos naturais sejam preservados e conhecidos, podendo contribuir para reduzir, quando houver condições para isso, a dependência da retirada de exemplares da natureza. Para o aquarista, acompanhar desde o cortejo até o nascimento e o desenvolvimento dos filhotes é uma experiência fascinante, capaz de transformar o aquário em uma verdadeira janela para observar a natureza em ação.
Bem, por hoje é isso. Termino por aqui agradecendo a leitura. Nos vemos no próximo artigo, que sai já já…Até lá!

Com Bravo de Bravura, e não de Braveza, Johnny Bravo (João Luís), escreve para revistas especializadas e para o blog da Sarlo há um cadim de tempo. Nessa jornada Julioverniana, após 20 Mil Léguas de textos, agora ele também desenvolve os roteiros para os vídeos de chamada do Sarlocast, onde você pode ouvir a sensual voz desse aquaman (tradução: homem de aquários).







