Existe um tipo de aquarismo que parece pertencer a outro universo e, particularmente, entendo que realmente se trate de outra pegada. Enquanto o aquarista tradicional costuma pensar em aquários de 50, 100 ou 200 litros, há quem planeje sistemas de 1.000, 2.000, 5.000 litros ou mais, destinados a peixes que, sozinhos, podem alcançar tamanhos maiores que um antebraço. É o mundo dos peixes ornamentais Big Size ou simplesmente “jumbos”.
Você conhece? Já viu? Ouviu falar? Teria um aqua desses? Tem alguma curiosidade a respeito? Se sua resposta foi sim, não, talvez ou até ‘que diabos é isso?’, o artigo é para você! (você percebeu que não deixei nenhuma chance para desistir dessa leitura, né?)
E é nessa big vibe que digo: bora ver o que tem pra hoje!
Definindo os Jumbos
Entenda jumbo, no contexto do aquarismo, como uma forma informal de se referir a peixes de grande porte, muito acima do tamanho normalmente encontrado em aquários domésticos. Não existe, porém, uma medida oficial que determine a partir de quantos centímetros um peixe passa a ser considerado jumbo. Assim, “jumbo” não é uma categoria taxonômica nem um padrão técnico universal, é uma expressão usada no hobby para designar peixes de grande porte, e o limite pode variar conforme o contexto.
Porém, resumir tudo que existe nessa definição seria impreciso. E é justamente aí que surge uma diferença significativa entre o aquarismo tradicional e o dos jumbos: o tamanho dos brinquedos e das tarefas.
Novamente, de forma direta e sem muitos rodeios, substitua a palavra jumbo por “muito grande” e aplique isso em todos os tópicos importantes para um aquário, ou seja, quando falarmos desse tema, estaremos falando de:
- Aquários gigantescos;
- Sistemas superdimensionados;
- Peixes oversized (de tamanho enorme);
- Alimentação diferenciada;
- Comportamentos extremos; e
- Manutenção frequente e intensa.
Em termos comparativos, eu destacaria que um aquário de 200 litros, que é uma estrutura considerável para os peixes que normalmente trato aqui nos artigos, porém, no aquarismo de jumbos, tal recipiente representaria apenas uma etapa intermediária – e, dependendo da espécie, nem isso – num caso de esperar um peixe crescer para ser introduzido no aqua principal ou se recuperar de alguma debilidade.
Cara-Crachá
Para continuarmos nosso papo, deixe-me apresentar alguns dos mais famosos jumbos, para que ao longo do texto você já os tenha na mente. Baseei as informações dentro do que há no fishbase.org e no www.seriouslyfish.com, porém, tomei a liberdade de arredondar valores, sendo que eles virão a servir como orientação referencial para as faixas de valores, mas para de fato agrupar as espécies num aquário procure fontes que adentrem mais profundamente as especificidades de cada uma.
Dentre os maiores e mais procurados gigantes, destaco:
- Aruanã (Osteoglossum bicirrhosum): bacia Amazônica, rios Rupununi e Oiapoque; 90 cm; pH range: 6.0 – 7.0; Temperatura: 24°C – 30°C.
- Aruanã Asiático (Scleropages formosus): Mianmar, Malásia, Indonésia e Tailândia; 90 cm; pH range: 5.0 – 8.0; Temperatura: 24°C – 30°C.
- Datnoides (Datnioides microlepis): Indonésia, Bornéu e Sumatra; 55 cm; pH range: 6.0 – 8.0; Temperatura: 22°C – 26°C.
- Peixe-faca (Chitala chitala): Índia e bacias dos rios Indo, Ganges-Brahmaputra e Mahanadi; 122 cm; pH range: 6.0 – 8.0; Temperatura: 24°C – 28°C.
Inúmeros bagres (pirarara, “surubins” Platystoma spp. etc.), cascudos, grandes ciclídeos (tucunaré, Crenicichla spp., zebrinha Heterotilapia buttikoferi etc.) são opções comuns neste tipo de aquário.
O aquário de ciclídeos americanos “jumbo”
Diminuindo uma categoria de tamanho, se assim posso dizer, encontramos uma seção um tanto quanto especial entre os jumbos: ciclídeos americanos de maior porte. O “especial” eu adicionei por conta própria, por sempre ter tido um pezinho para os ciclídeos – sejam anões, sejam africanos, sejam os centro-americanos, pois gosto de contar com os hábitos, cores e personalidade, quando escolho peixes.
Nesse ramo dos jumbos, destaco:
- Jaguar (Parachromis managuensis): Honduras à Costa Rica; 60 cm; pH range: 7.0 – 8.0; Temperatura: 23°C – 25°C
- Oscar (Astronotus ocellatus): Bacias dos rios Amazonas e Orinoco; 46 cm; pH range: 6.0 – 8.0; Temperatura: 22°C – 25°C
- Green Terror (Andinoacara rivulatus): Equador ao Peru; 30 cm; pH range: 6.5 – 8.0; Temperatura: 20°C – 24°C
- Jack Dempsey (Rocio octofasciata): México à Honduras; 25 cm; pH range: 7.0 – 8.0; Temperatura: 22°C – 30°C
- Salvini (Trichromis salvini): México à Guatemala; 22 cm; pH range: 7.0 – 8.0; Temperatura: 22°C – 30°C
- Boca de Fogo (Thorichthys meeki): México, Guatemala e Belize; 17 cm; pH range: 6.5 – 7.5; Temperatura: 26°C – 30°C
Entendo que os tamanhos de algumas espécies que destaquei são notoriamente distintos do primeiro grupo. Isso foi propositalmente colocado para que eu pudesse comentar que devido ao territorialismo e comportamento agressivo, dependendo da formulação da composição do aquário de jumbos, alguns destes podem ser compatíveis. Também não foi à toa que destaquei que o termo “jumbo” não era nada formal, justamente para poder fazer algumas inferências que pudessem destoar um pouco do tema central.
A lista de outras opções é imensa ainda: Citrinelo (Amphilophus citrinellus), Geophagus spp., Severo (Heros severus), Vieja spp., enfim, há muita coisa bela. Se você se interessou por estes ciclídeos, tenho um podcast aqui no blog falando um pouquinho mais sobre eles.
Nesse aquário de peixes jumbo americanos, também podemos encontrar dois peixes híbridos muito conhecidos no hobby: o Papagaio (resultado do cruzamento das espécies Vieja melanurus e Amphilophus citrinellus) e o Flower Horn (a rigor, foi desenvolvido por meio de sucessivos cruzamentos e seleção de diferentes ciclídeos centro-americanos; sua origem é complexa e não corresponde a uma combinação única de espécies, embora vejamos citações que remontam à mistura do red devil cichlid [Amphilophus labiatus] + trimac cichlid [A. trimaculatus] + papagaio).
Quais são os principais pontos para o aquarista focar?
Você pode estar se perguntando “o que realmente muda quando o peixe deixa de ter 5 ou 10 centímetros e passa a ter 50, 80 ou 100?” Praticamente tudo. Por causa dessa mudança drástica de escala é que precisamos reconfigurar nossa forma de pensar o aquário. Eu destacaria principalmente estes pontos aqui:
Construção do Aquário: não trate essa etapa como um projeto doméstico comum. Por se tratar de volumes elevados, questões estruturais, nivelamento, distribuição de carga, base, escolha de vidro ou acrílico, travamentos e acesso para manutenção, um profissional deve ser consultado. Eu até poderia dar pitacos, mas prefiro não fazer. A pessoa responsável é quem deverá verificar onde ficará o aquário, pois o peso será absurdo e não é qualquer um que sabe decidir se: 1) o aquário será de vidro ou acrílico, 2) se o móvel ou estrutura de suporte aguenta o tranco ou 3) se o piso do recinto escolhido aguentará. Cada caso é um caso e isso deve ser levando muito a sério.
Dimensionamento do Espaço: é certo que um aquário de ciclídeos americanos pode ser desenvolvido num volume de 400 litros, mas normalmente os volumes para os jumbos são maiores. Peixes de corpo alongado, como as aruanãs, exigem aquários especialmente largos e compridos, permitindo que realizem manobras e mudanças de direção sem restrições. A altura também precisa ser cuidadosamente dimensionada: aquários muito altos aumentam a pressão hidrostática e podem dificultar consideravelmente a manutenção.
Ornamentação: um dos maiores encantos desse tipo de aquarismo está justamente na presença física dos animais, sua imponência, não necessariamente em plantas, troncos e rochas. Assim, dando continuidade ao tópico de dimensionamento de espaço, o que se torna mais relevante aqui – especialmente se sua escolha se dá pelos maiores de todos – é preservar a área de movimentação. Quaisquer adornos precisam evitar formar espaços apertados, evitando que um peixe se machuque ou fique entalado. Esses peixes precisam de espaço para nadar.
Sistema de Suporte à Vida: No aquarismo convencional, podemos colocar um filtro adequado, aquecedor, iluminação, substrato e decoração e teremos uma pequena representação de um ambiente aquático. Nos jumbos, um aquário de grandes dimensões se beneficia sobremaneira ao utilizar sump, bombas de alto fluxo, grandes volumes de mídia biológica, filtragem mecânica robusta, sistemas de circulação, aquecimento de maior potência e até equipamentos redundantes (especialmente possuir mais de um sistema de filtragem para evitar que uma única falha coloque em risco todo o aquário); e, dependendo do projeto, equipamentos como UV.
Filtragem: este é um destaque que considero importante. Eu recomendaria construir um sistema capaz de lidar com duas necessidades simultaneamente: remover resíduos sólidos e processar biologicamente a carga orgânica. Há uma razão simples para isso: um peixe grande produz uma quantidade grande de resíduos e quando colocamos vários desses juntos, a carga orgânica cresce rapidamente. Devido à dieta baseada em peixes inteiros, camarões e rações extrusadas de alto teor proteico, a produção de amônia é preocupante. Por isso, sump e outros sistemas de filtragem de grande capacidade aparecem com tanta frequência nesse segmento. Nos sistemas de jumbos, a filtragem mecânica ganha enorme importância para que a retirada de restos de alimento, fezes e partículas aconteça antes que se decomponham e aumentem a carga sobre a filtragem biológica.
Agressividade: outro aspecto que muda completamente de escala é a convivência. Em termos comparativos, podemos prever que um pequeno peixe territorial pode perseguir outro e tudo bem, por outro lado, um ciclídeo grande pode transformar essa mesma disputa em uma verdadeira batalha. Além disso, um peixe predador não precisa necessariamente ser “agressivo” para representar um problema, basta que o companheiro caiba em sua boca. Não é um tópico simples. Há combinações que funcionam durante anos, mas que de um momento para outro se transformam completamente. Há técnicas que também atuam para amenizar, como a densidade de estocagem controlada (overstocking técnico), utilizada para dispersar o foco de agressão entre vários indivíduos, impedindo que um único peixe seja acossado até a morte. Essa estratégia, entretanto, exige experiência, consonância com sistemas de filtragem e manutenção compatíveis, e não deve ser confundida com simplesmente superlotar o aquário. No geral, é necessário considerar: 1) tamanho relativo dos peixes (tamanhos similares ajudam a equalizar); 2) comportamento individual; 3) espaço disponível; 4) quantidade de abrigos e áreas de fuga; 5) posição que cada espécie ocupa na coluna d’água; 6) disponibilidade de alimento; 7) territorialidade; 8) idade e maturidade sexual; e, principalmente, 9) o que acontece quando aqueles peixes crescerem (São predadores? Qual o tamanho final?) – essa talvez seja uma das maiores armadilhas desse segmento.
Alimentação: para algumas espécies, a alimentação exige cuidados que vão muito além de simplesmente escolher uma boa ração. Muitas são predadoras e possuem necessidades alimentares específicas, embora diversas possam ser condicionadas a aceitar rações comerciais de alta qualidade.
Como podemos perceber, o peixe não é o único jumbo, o sistema inteiro o é. Temos o peixe grande, o comportamento mais impactante, a alimentação mais volumosa, os resíduos em maiores quantidades, os equipamentos mais potentes (muitas vezes em redundância), a manutenção mais constante e, enfim, a responsabilidade proporcionalmente maior. É um tipo de aquarismo que exige planejamento, espaço, investimento e, acima de tudo, disposição para entender que um peixe de grande porte não é comprado apenas considerando o tamanho do aquário: ele exige todo um sistema pensado ao seu redor.
E, convenhamos, há algo de fascinante nisso. Ver um grande peixe num aquário de milhares de litros, observar o comportamento de um ciclídeo jumbo adulto ou simplesmente acompanhar a imponência no nado de uma aruanã é uma experiência que realmente impacta nossa percepção sobre o que pode ser um aquário.
E é deixando você com essa sensação jumbilante que vou me despedindo. Obrigado por chegar até aqui comigo em mais esta leitura. Espero que este passeio pelo universo dos jumbos tenha despertado sua curiosidade – seja para conhecer melhor esses gigantes, seja apenas para concluir que, por enquanto, seu aqua de 100 litros está de ótimo tamanho! Em breve, estarei de volta com mais um assunto do nosso mundo aquático. Até lá!

Com Bravo de Bravura, e não de Braveza, Johnny Bravo (João Luís), escreve para revistas especializadas e para o blog da Sarlo há um cadim de tempo. Nessa jornada Julioverniana, após 20 Mil Léguas de textos, agora ele também desenvolve os roteiros para os vídeos de chamada do Sarlocast, onde você pode ouvir a sensual voz desse aquaman (tradução: homem de aquários).








