Direto das paradisíacas regiões asiáticas, trago hoje um peixe bem conhecido no hobby: o Peixe-Paraíso. Conhecido por sua roupagem de prisioneiro fashion, com listras azuis sobre um corpo avermelhado, encanta e assusta muitos aquaristas. “Assusta por que?” Hoje vamos explorar mais um pouquinho desse companheiro de muitos aquaristas mundo afora e tentar responder esta e outras questões. Bora ver o que tem pra hoje!
Identidade do indivíduo
Os popularmente conhecidos Peixes-Paraíso são parentes do Betta, pertencentes à família Osphronemidae, mas do gênero Macropodus, todos originários da Ásia. Etimologicamente falando, o nome significa Pé Grande rsrsrsrs (Macro = grande e podus = pé, em referência às longas nadadeiras pélvicas), mas ainda bem que escolheram o nome Peixe-Paraíso e não Peixe-Pé-Grande.
Como citei o parente, achei legal dizer que em comum eles possuem:
- o labirinto, um órgão que permite respirar o ar atmosférico, o que lhes permite sobreviver em águas estagnadas e pobres em oxigênio. Na verdade, todas as espécies aqui abordadas, obrigatoriamente precisam respirar o ar fora d’água;
- o comportamento reprodutivo dos machos em construir um ninho de bolhas na superfície da água, assim como cuidar dos ovos e expulsar quaisquer intrusos (inclusive as fêmeas);
- e o ímpeto dos machos de brigar entre si.
Peixes-Paraíso são territoriais e é dito que em aquários pequenos ficam agressivos demais, podendo ferir outros peixes – este é o motivo pelo qual alguns aquaristas o temem. Recomendaria aquários a partir de 80 cm de comprimento (mais ou menos 100 litros), evitando mais de um macho no aqua, peixes diminutos ou peixes com nadadeiras longas, como guppies, kinguios ou mesmo seus parentes bettas.
Como sempre, fui atrás do nome comercial e das espécies a ele relacionadas e, adivinha? Sim, há mais de uma espécie.
Quantidade de Espécies
Há uma bibliografia – no idioma inglês – que é considerada um marco importante na resolução da confusão que existia sobre a identificação das espécies de peixes-paraíso: Freyhof, J. and F. Herder, 2002. Review of the paradise fishes of the genus Macropodus in Vietnam, with description of two species from Vietnam and southern China (Perciformes: Osphronemidae). Ela se deteve sobre coleta extensiva de exemplares para estudo, análise de material em museu, medições e, o elemento-chave do estudo, os padrões de coloração em peixes vivos (incluindo padrões de estresse e nupciais), os quais se revelaram os caracteres diagnósticos mais fiáveis para separar as espécies.
Atualmente, a taxonomia reconhece 9 espécies dentro do gênero Macropodus, no entanto, a disponibilidade no comércio de aquários é bem mais restrita, tal como podemos ver a seguir (nota: as imagens são de referência, tecnicamente produzidas com a ajuda de IA):
- Macropodus opercularis: o clássico Peixe-Paraíso e provavelmente a única espécie que encontraremos nas lojas do Brasil, distinguida por possuir de 7 a 11 barras verticais escuras e nítidas no corpo e uma faixa escura cruzando o olho. É simpátrica (coexiste no mesmo território – China, Taiwan e Vietnã.) com outras espécies em certas regiões, mas mantém sua identidade genética e visual bem definidas. Possui nadadeira caudal bifurcada, onde ambos os lobos são alongados, contando ainda com uma extensão filamentosa em cada lobo – é um troço lindo de se ver! Possui mancha escura no opérculo (“bochecha”), característica que apoiou a nomenclatura. É um peixe resistente e reconhecido por ser um ótimo comedor de caramujos (também pode comer pequenos peixes). Chega a quase 7 cm; pH entre 6.0 e 8.0; temperatura de 16 a 26°C.

- Macropodus ocellatus: Paraíso de Cauda Redonda. Diferente do M. opercularis, por não possuir barras verticais nítidas no corpo; a coloração é mais uniforme, cuja base varia de cinza a marrom-oliva pálido – faço ressalva às cores nupciais, quando o corpo inteiro do macho pode escurecer para um azul-escuro ou quase preto, com iridescência metálica (azul/verde) nas nadadeiras e na cabeça. Possui a mancha escura na “bochecha”, só que menos nítida. É um peixe que suporta temperaturas muito baixas e encontrei registros de que há que haver alguma experiência no aquarismo para mantê-lo, visto que se permanecer constantemente sob temperaturas altas para a espécie (acima de 24ºC), ele fica suscetível a um estresse metabólico crônico (seu sistema é programado para flutuações metabólicas sazonais), com reais chances de deteriorar sua saúde. Ele habita regiões onde os rios congelam na superfície, forçando o peixe a um estado de atividade reduzida e dependência total das guelras (já que o acesso ao ar atmosférico é bloqueado pelo gelo). Originário da China, Japão e Coreia. Um pouco maior que seu antecessor, chegando a quase 9 cm; pH entre 6.0 e 7.5; temperatura de 4 a 25°C.


- Macropodus spechti: Conhecido como Paraíso Preto por ter o corpo inteiramente nos tons amarronzados e escuros; quanto à mancha escura na “bochecha”, nesta espécie ela é ausente ou pouco aparente. Sua distribuição é restrita às bacias hidrográficas dos rios Huong e Thu Bon (Vietnã central). Quanto ao tamanho, é o menor até aqui, atingindo cerca de 6 cm; pH entre 6.5 e 7.8; temperatura de 20 a 26°C.

- Macropodus erythropterus: descrita formalmente apenas em 2002, no artigo de Freyhof, J. and F. Herder, 2002, o Paraíso de Dorso Vermelho (erythro, em latim, significa “vermelho” e pterus “asa”, ou seja, asa vermelha) tem a mancha na “bochecha” ausente ou pouco aparente, com manchas vermelhas nas membranas das nadadeiras dorsal e caudal e corpo com iridescências de azul a verde. Vem do Vietnã central (rios Quang Tri, Cam Lo e Giang). Seu tamanho é de cerca de 6,5 cm (no Fishbase) e 9+ cm (no Fishipedia); pH entre 6.5 e 7.5; temperatura de 18 a 25°C.

- Macropodus hongkongensis: Peixe-Paraíso de Hong Kong também descrita formalmente apenas em 2002, no artigo anteriormente mencionado, este peixe possui coloração escura uniforme (sem barras verticais), o que historicamente levou à confusão com M. spechti (o antigo M. concolor), e mancha escura na “bochecha”. Presença de pequenos pontos pretos no topo da cabeça e manchas escuras no dorso. Originário de Hong Kong (vide o nome dele). Também é dos menores, chegando a 6,0 cm (pelo Fishbase), embora também tenha encontrado menção sobre o tamanho alcançar 10 cm (iNaturalist). Não encontrei menção direta, mas segundo informação genérica de pH e temperaturas em rios de Hong Kong, sugeriria pH entre 6.5 e 8.5; temperatura de 14 a 27°C. (não consegui gerar imagem minimamente fiel a um exemplar desta espécie)
Aqui abaixo estão as demais, sendo que para elas não pude obter nenhuma informação que possa ser validada, além de ver que são todas originárias do Vietnã:
6. Macropodus baviensis
7. Macropodus lineatus
8. Macropodus oligolepis
9. Macropodus phongnhaensis
Como você pode perceber, existem elementos que podemos nos debruçar para identificar as espécies, especialmente: faixa que atravessa o olho, mancha do opérculo e número de barras horizontais. Há uma chave de identificação no Fishbase.org para quem quiser se aprofundar. Para chegar nela entre numa das seguintes espécies: M. ocellatus, M. opercularis, M. erythropterus, M. hongkongensis ou M. spechti – as demais não têm esse caminho – e vá na “Descrição Resumida”, no link “Identification Key”. Sobre as cores, ressalto que pode haver diferença entre as descrições de peixes encontrados na natureza e as de peixes selecionados em criações em cativeiro, para comercialização.
Eu gosto de curiar, então, acabei achando outro gênero que também recebeu o nome de Peixe-Paraíso: é o Pseudosphromenus cupanus (Spiketail paradisefish ou Peixe-Paraíso cauda-de-lança), mas fixei a abordagem do artigo só no gênero Macropodus. Fica a dica de pesquisa para aprofundar seus conhecimentos.
E é por aqui que termino mais um artiguinho. 😊 E você, já sabia dessas coisas sobre os Peixes-Paraíso? Espero que eu tenha trazido algo para agregar no seu hobby!
Agradeço a leitura e aguardo você no próximo artigo! Até lá!

Com Bravo de Bravura, e não de Braveza, Johnny Bravo (João Luís), escreve para revistas especializadas e para o blog da Sarlo há um cadim de tempo. Nessa jornada Julioverniana, após 20 Mil Léguas de textos, agora ele também desenvolve os roteiros para os vídeos de chamada do Sarlocast, onde você pode ouvir a sensual voz desse aquaman (tradução: homem de aquários).







