Adoro a empolgação de mergulhar no mundo aquático dos peixes de aquário, e hoje vamos conhecer um pouco mais de um peixe cheio de história (e de nomes)! Você já ouviu falar em Colisa? E em Tricogaster? E se eu disser que há alguns anos (desde 2009) houve uma troca, onde Colisa virou Tricogaster e Tricogaster virou outra coisa. Surpreende ou já sabia? Se essa troca de nomes parece confusa, você está no lugar certo! Muita gente se pergunta: “Afinal, é a mesma coisa ou não?”. É justamente neste artigo que vamos entender as mudanças no nome da adorada Colisa e falar um pouquinho desses incríveis personagens do aquário!
Então, bora ver o que tem pra hoje!
A nomenclatura
Os antigos gouramis anões, pertencentes à família dos betas e peixes-paraíso, Osphronemidae (subfamília Trichogastrinae), ainda hoje conhecidos comercialmente como colisas ganharam em 2009 outro nome científico (o nome de registro no cartório). Todas as colisas hoje em dia estão classificadas sobre o gênero Trichogaster. E quando as pessoas leem tal nome se pegam pensando que tem algo errado, já que colisa não é tricogaster.
Mas a resposta é simples: no passado, havia o gênero Colisa, que as classificava, dando o nome popular e comercial. Algumas das colisas ainda passaram pelo gênero Polyacanthus, hoje também em invalidado. E isso foi reavaliado para firmar o “novo” nome científico e invalidar o antigo.
Independentemente dessa mudança, esses peixinhos ainda são conhecidos e comercializados aqui no Brasil como colisas e você, mesmo agora sabendo os nomes oficiais, pode continuar chamando seu peixinho como quiser (mas se alguém perguntar você já sabe o certo).
Por falar em nome, segundo a etimologia de Trichogaster, consta que a primeira parte do nome significa “cabelo” e a segunda “estômago”. Você poderia somar e pensar que chamaram o pobre bichinho de “barriga cabeluda” (kkkk), mas não é tão grosseiro assim, a menção se refere aqueles prolongamentos na barriga, similares a fios (fio de cabelo).
Curiosidade sobre suas “antenas”
Desde muito antes da maioria de nós ter nascido, em 1947, já se pesquisava sobre a utilidade desses filamentos. A primeira coisa importante a saber é que tais “fios” são as nadadeiras pélvicas modificadas. No Trichogaster, assim como na maioria das espécies da família Osphronemidae, o primeiro raio da nadadeira pélvica é livre e alongado, nas deste gênero o restante da nadadeira se reduz a uma estrutura vestigial, porém, perfeitamente enervada. Esses filamentos agem como uma extensão do sistema nervoso em contato com o ambiente.
Os estudos promovidos desde a década de 40 demonstram que os filamentos funcionam como rastreadores químicos e táteis, permitindo que o peixe “prove” o ambiente e identifique obstáculos antes de tocá-los com o corpo. Em analogia, seguramente podemos afirmar que funcionam como as antenas de um inseto ou os bigodes de um gato, mas com a capacidade adicional de “sentir o gosto” da comida ou saber sobre potenciais parceiros reprodutivos.
Quando avaliamos os peixes, no sentido amplo, isso nos parece condizente visto que em muitos peixes as papilas gustativas estão distribuídas não só pela cavidade oral e branquial, mas por outras superfícies, como nadadeiras (a sensibilidade gustativa em peixes excede a de todos os outros vertebrados).
Interessante pensar no porquê isso acontece nos Trichogaster, mas logo entendemos isso quando pensamos nos tipos de ambiente que costumam viver: águas com vegetação densa ou pouca visibilidade, o que torna tal aparato essencial para peixes que vivem em locais de pouca visibilidade, como água turva ou escura e repleto de vegetação.
Para quem quiser se aprofundar e verificar, os artigos de onde extraí essas informações – todos em língua inglesa – são:
- Scharrer, E., Smith, S. W. & Palay, S. L. (1947) – Chemical sense and taste in the fishes, Prionotus and Trichogaster.
- Hara, T. J. (Ed.). (1992). Fish Chemoreception. Chapman & Hall.
- Kasumyan, A.O. & Mouromtsev, G.E. (2020) – The teleost fish, blue gourami Trichopodus trichopterus, distinguishes the taste of chemically similar substances.
Comportamento e biologia das espécies (geral)
Tal qual vimos para os betas e peixes-paraíso, o gênero Trichogaster, também possui o órgão labirinto – uma estrutura supra branquial altamente vascularizada que permite a absorção de oxigênio diretamente do ar atmosférico, uma adaptação vital para seus habitats naturais, que podem ser riachos densos em plantas, pântanos ou cursos d’água de fluxo lento. Assim, no geral, requerem aquários bem plantados com muitas plantas de superfície, troncos e esconderijos, para simular seu habitat natural denso em vegetação.
São peixes geralmente pacíficos e tímidos, embora os machos possam ser territoriais entre si, especialmente durante a época de reprodução e ao defender seu ninho de bolhas (mistura de muco e ar). Por falar neste último assunto aqui, os ritos são os mesmos para o beta, onde o macho é quem assume a responsabilidade de guardar, arrumar e proteger o ninho, os ovos e filhotes, tornando-se muito agressivo, sendo altamente recomendável remover a fêmea para evitar ferimentos.
São onívoros e bons de boca, comendo ração seca, fresca ou congelada.
Espécies Válidas e Distribuição Geográfica
Existem apenas quatro espécies válidas de colisas. São elas:
Trichogaster chuna – Colisa Mel ou Colisa Chuna
- Distribuição: Nordeste da Índia, Nepal Bangladesh
- Parâmetros da água: pH de 6.0 a 8.0; temperatura: 22 a 28°C
- Tamanho: 6-7 cm.
- Biologia: respiração atmosférica facultativa.

Trichogaster fasciata – Colisa Listrada
- Distribuição: Índia, Bangladesh, Nepal, Paquistão e Mianmar.
- Parâmetros da água: pH de 6.0 a 7.5; temperatura: 22 a 28°C.
- Tamanho: 6-8 cm.
- Biologia: obrigatoriamente precisa respirar o ar atmosférico.

Trichogaster labiosa – Colisa Labiosa (de Lábio Grosso)
- Distribuição: sul de Mianmar
- Parâmetros da água: pH de 6.0 a 7.5; temperatura: 22 a 28°C.
- Tamanho: 8-9 cm.
- Biologia: obrigatoriamente precisa respirar o ar atmosférico.

Trichogaster lalius – Colisa Anã ou Colisa Lalia
- Distribuição: Paquistão, Índia, Bangladesh.
- Parâmetros da água: pH de 6.0 a 8.0; temperatura: 25 a 28°C
- Tamanho: 5-8 cm.
- Biologia: respiração atmosférica facultativa.

E assim chegamos ao fim de mais um artigo, o qual espero ter trazido algum conteúdo útil para você e para o hobby. No próximo voltamos com os tricogasters (de novo? Não, agora serão os Trichopodus rsrs).
Obrigado pela leitura! Nos encontramos já já. 😊

Com Bravo de Bravura, e não de Braveza, Johnny Bravo (João Luís), escreve para revistas especializadas e para o blog da Sarlo há um cadim de tempo. Nessa jornada Julioverniana, após 20 Mil Léguas de textos, agora ele também desenvolve os roteiros para os vídeos de chamada do Sarlocast, onde você pode ouvir a sensual voz desse aquaman (tradução: homem de aquários).







