Muitas vezes, quando ouvimos falar em maus-tratos aos animais, as imagens que nos vêm à cabeça são de cães, gatos ou aves. Infelizmente, os peixes acabam ficando de fora desse olhar mais atento da sociedade. Enquanto o mercado de pets oferece shampoos, roupas e clínicas em cada esquina, e o ambiente de pets enaltece e procura mostrar aos tutores que merecem tudo de melhor, o mundo dos aquários parece, para muitos, apenas uma galeria de peças de decoração viva, o que é, a meu ver, um grande erro. Quem mantém um aquário com carinho sabe que peixes, camarões e plantas também são seres que reagem ao ambiente e dependem totalmente de nós.
Aquaristas precisam reforçar que os peixes dos aquários são pets tão importantes e merecedores de cuidados quanto qualquer doguinho fofo por aí. Já vimos aqui no blog que eles sentem estresse, dor e, digamos assim, “alegria” à sua maneira. Para os hobbistas dedicados, ter peixes não se trata de coleção de objetos de decoração, mas sim de assumir a responsabilidade pela vida de seres que decidimos manter entre quatro paredes vítreas.
E é nessa vibe que preparei o artigo de hoje, pensando no que significaria no hobby gerar bem-estar aos habitantes de um aquário. Bora ver o que tem pra hoje!
Bem-estar para o Aquarismo

Falar de bem-estar para peixes significa garantir que eles tenham uma vida digna, em todos os sentidos possíveis, e não apenas que sobrevivam num recipiente com água; é dar a chance de os organismos poderem manifestar seu potencial natural.
Entendo perfeitamente que peixes são pets diferentes, não menos merecedores de bons cuidados, mas diferentes em vários aspectos. Claro, pois já podemos partir da difícil ideia de conceber veterinários especializados em peixes de aquário, com clínicas, consultas, valores e emergências voltadas para tal. Porém, nós, como tutores, podemos aprimorar nosso conhecimento, empirismo e olhar para proporcionar aquilo que aprendemos aos nossos tutorados, buscando amenizar a ausência de estrutura veterinária especializada.
Acredito que falar em bem-estar no aquário signifique juntar uma porção de tópicos que já conhecemos e ver como proceder em cada um ou o que seria esperado neles. Assim, priorizei os que achei mais significativos de adentrar e a partir de agora passo a explorá-los.
Alimentação
Não tinha como começar por outro assunto, tamanha a importância deste. Um peixe, como qualquer outro animal, requer minimamente um perfil nutricional, baseado em sua natureza específica, que uma vez desrespeitado, desencadeia uma série de processos debilitantes de ordem fisiológica, comportamental e estrutural. Assim, o bem-estar tem uma de suas principais bases na alimentação e isso nem de perto significa optar pela ração mais barata.

Para que um peixe cresça forte, ele precisa de uma ração que ofereça, em proporções adequadas, o que ele obteria se estivesse na natureza, ou seja, proteínas, fibras, aminoácidos, vitaminas, carboidratos, hidrocarbonetos (pigmentos), gorduras e minerais. Obviamente, cabe aqui lembrar que existem diferenças cruciais entre carnívoros e herbívoros, cujos sistemas digestivos estão mais aptos a receber distintos tipos de alimento, o que nos remete à primeira dica (além de escolher boa ração) que é de tentar reunir peixes com hábitos alimentares parecidos. Pense que dar uma ração imprópria ao peixe pode forçar demais seu sistema e fazê-lo colapsar.
Outro ponto importante é a variedade. Alternar entre ração seca de boa procedência, alimentos naturais adequados e, quando possível, alimentação viva (alternativamente: fresca e congelada, pois sei como nem sempre é possível cultivar alimento vivo). Neste último ponto, é exigida uma atenção especial: alimentos vivos, às vezes, carregam consigo o risco de introdução de parasitas e patógenos no aquário. Atente para obtenção de uma procedência segura e a correta higienização antes de ministrar alimento vivo.
Agora, dar comida não se limita em primar pela qualidade, deve haver cuidado também com o excesso! A maior causa de problemas em aquários é a “generosidade” na hora de alimentar. Comida sobrando vira sujeira, que vira amônia (um veneno invisível aos peixes), sendo que o ideal é oferecer apenas o que eles comem em dois ou três minutos.
Organização da Casa

Imagine viver o resto da sua vida em um quarto minúsculo e sem mobília, quente ou frio demais, com o ar poluído ou lotado de pessoas. Consegue imaginar o quão ruim seria? É assim que um peixe se sentiria em um aquário que não atende condições mínimas de bem-estar nesses quesitos.
Quanto ao espaço, o tamanho do aqua deve permitir que o animal nade livremente e exerça seu comportamento natural, sem se sentir sufocado pelas excessivas limitações impostas. O tamanho do aquário também influencia diretamente o comportamento; espaço insuficiente gera estresse e desencadeia agressividade.
É fácil entender que decoração também é fundamental e não serve apenas para estética. Plantas e troncos oferecem esconderijos que reduzem drasticamente o estresse, permitindo comportamentos naturais, como um cascudo que se gruda num tronco ou Apistogramma que escolhe uma gruta para se reproduzir. Peixes que não têm onde se sentir tranquilos vivem em estado de alerta constante, o que baixa a imunidade e abre as portas para doenças.
Superlotação é outro assunto importante, mas ainda ignorado por boa parte das pessoas que decidem ter aquários. Existem técnicas para quem decide ter peixes acima da quantidade indicada, porém, é algo que requer mais recursos e conhecimento, sendo que para os efeitos pretendidos neste artigo seria algo não indicado, ou seja, contrário ao bem-estar.
Um detalhe que muitas vezes passa batido é a compatibilidade entre espécies. Colocar peixes que causam danos a outros é uma forma de suprimir bem-estar do aquário. Antes de introduzir um novo morador, é vital saber se ele é sociável ou agressivo.
Climatização e Química
É difícil demais separar os tópicos de bem-estar, pois estão todos intimamente ligados, ainda assim preferi dar ênfase no que se refere aos parâmetros de água, em especial a “temperatura” e “pH e amônia”. Assim, esta seção abrangeria o que mencionei acima sobre o ambiente estar quente ou frio demais, ou com o ar poluído.
A temperatura da água é fundamental ao peixe, já que ele não produz calor próprio. Se a água esfria demais, o metabolismo torna-se lento, se esquenta demais, eles ficam agitados e sem oxigênio. Manter a temperatura estável, sem oscilações bruscas ao longo do dia, é um dos maiores segredos para um peixe viver bem no aquário e isso se faz com um bom termostato, ligado ao aquecedor.
Não podemos esquecer da química da água. Assim como mencionei para temperatura, quando falamos em pH, precisamos que ele esteja dentro da amplitude ideal da espécie mantida, evitando oscilações bruscas (o que envolve aqui o entendimento do KH); quando esse parâmetro não é respeitado, a fisiologia do organismo é atingida. Já para a amônia (e o nitrito) ela deve estar sempre em zero, pois é tóxica, não tenho meio termo a sugerir neste quesito.
Saúde

Este tópico é uma espécie de resumo dos anteriores (na verdade não há tópicos distantes ou dissociados entre si), pois quando alguma coisa desanda, acontece dos peixes adoecerem. E quando acontece, também como em humanos, quanto antes se identifica um sintoma de doença, melhor será a chance de providenciar um tratamento eficaz.
Os sinais mais fáceis de se observar em peixes enfermos são: nadadeiras baixas, pintas e manchas, vermelhidão, nadadeiras puídas ou rasgadas “sem explicação”, corpos estranhos aderidos à pele do peixe.
O ideal é sempre separar os peixes doentes, para tratá-los em recipiente à parte, porém, nem sempre é possível. Em todos os casos, é preciso certificar-se da doença, antes de aplicar a medicação. Para tal, recorra a fontes confiáveis de informação.
Pequenos Cuidados
Como um aquário é o resumo de uma série de procedimentos, acontecimentos e condições interligados, tudo que podemos fazer para ajudar na harmonia é bem-vindo. Refiro-me aqui a tudo que pode enriquecer o aquário:
Ritmo circadiano (ciclo claro/escuro): o excesso de luz culmina em estresse, assim, adote e siga fotoperíodos normalmente usados no aquarismo, que giram entre 8h e 10h.
- Qualidade genética: até isso aqui é importante observar. Peixes de linhagens mal selecionadas ou vindos de cruzamentos incessantes podem ter fragilidade estrutural e mesmo imunológica. Procure conhecer a procedência dos exemplares.
- Características comportamentais: dar a chance do peixe poder exercer seu papel ecológico, tal como exemplifico a seguir: peixes territoriais precisam de áreas definidas; espécies de cardume precisam viver em grupo para se sentirem seguras etc.
- Estímulo ambiental: ambientes muito “estéreis” (sem permitir que o peixe interaja com o layout) reduzem comportamento exploratório.
- Quarentena: fundamental para resguardar o sistema do aquário de agressões externas, no que tange às doenças ou parasitas.
Perceba que nenhum desses cuidados é isolado ou supérfluo. São detalhes que, somados, constroem estabilidade, previsibilidade e segurança para os peixes. O bem-estar, no aquarismo, nasce justamente dessa soma de pequenas atitudes conscientes.
Em última análise, promover o bem-estar animal no aquarismo é um exercício diário de observação e empatia. Não se trata apenas de manter a água cristalina ou o layout bonito para as visitas, mas sim de garantir que, dentro daqueles vidros, a vida pulse com dignidade. Quando entendemos isso, deixamos de ser meros donos de um recipiente com água e passamos a ser os guardiões de pets do mundo submerso. E talvez seja justamente essa consciência que diferencia o aquarista comum daquele que realmente pratica o bem-estar animal.
E assim, chego ao fim de mais um artigo, agradecendo a você a leitura. Nos encontramos no próximo, que sai já já…até lá!

Com Bravo de Bravura, e não de Braveza, Johnny Bravo (João Luís), escreve para revistas especializadas e para o blog da Sarlo há um cadim de tempo. Nessa jornada Julioverniana, após 20 Mil Léguas de textos, agora ele também desenvolve os roteiros para os vídeos de chamada do Sarlocast, onde você pode ouvir a sensual voz desse aquaman (tradução: homem de aquários).







