Muitas vezes, a percepção geral sobre aquários limita-se ao entretenimento, mas o que temos visto, ao ler aqui no blog os artigos sobre as grandes águas de visitação ao redor do mundo, é que a realidade científica que permeia o aquarismo é muito mais que isso. O que ocorre nas salas de locais como o Georgia Aquarium ou o Shedd Aquarium gera dados que impactam diretamente a medicina, a segurança hídrica, a gestão de recursos naturais e mesmo a psicologia.

Daí que veio a ideia do título, onde decidi buscar estudos feitos nos bastidores do aquarismo profissional, os quais fazem a diferença no nosso mundo, mas que mal sabemos que acontecem (“ocultos” de nós), fazendo um trocadilho as chamadas “ciências ocultas” do imaginário popular.

E é assim que digo: bora ver o que tem pra hoje!

Estudos conhecidos

Certamente muitos de nós já ouviram sobre peixes ornamentais com algum papel benéfico para nossa sociedade, como por exemplo no controle biológico de pragas, principalmente larvas de mosquitos vetores de doenças humanas, como dengue, malária, chikungunya e febre amarela. Muito comum, na Ásia e na América Latina, foi a introdução de guppies (Poecilia reticulata), por terem esses peixinhos um apetite natural por larvas presentes na superfície da água, capazes de reduzir significativamente as populações de mosquitos em ambientes urbanos e rurais. Outros também foram testados, como os betas (Betta splendens), onde especialmente as fêmeas tinham bom desempenho nesta função, ou ainda platis (Xiphophorus maculatus) e molinésias (Poecilia sphenops), sendo estes menos expressivos nos resultados. Esse tipo de abordagem também foi testado para outros vetores de doenças. Para caramujos planorbídeos, potenciais vetores da esquistossomose, foram testados com boa performance a botia-palhaço, que usa dentes faríngeos para quebrar a concha, e o peixe-paraíso.

E há necessidade de grandes agradecimentos da humanidade ao paulistinha (Danio rerio). Esse pequeno peixe tropical passou a ser amplamente utilizado na década de 80 em estudos comportamentais, toxicológicos, na investigação de doenças humanas, nos testes de novos agentes terapêuticos e, numa questão muito emblemática no aquarismo, ligada à genética. Há nele muitas características que favorecem sua utilização científica, como fácil manutenção, baixo custo, alta taxa reprodutiva, desenvolvimento rápido, embriões transparentes e genoma sequenciado com significativa homologia ao de mamíferos.

No aquarismo, como ressaltei, acabou sendo o precursor dos amiguinhos “radioativos”, aqueles geneticamente modificados (com genes de água-viva ou coral) para apresentar cores fluorescentes vibrantes, que brilham sob as luzes negra ou actínica. Hoje são encontrados, além dos paulistinhas, tetras, barbos, coridoras, labeos e até ciclídeos. Não sou nem um pouco fã, mas fica aí a informação.

Os novos vieses dos estudos

Muito evoluiu a pesquisa no mundo dos aquários. Hoje não só nas universidades temos pesquisas de vanguarda e em vários dos grandes aquários têm sido desenvolvidas notórias referências científicas. O estudo da biologia, do comportamento e do ambiente – dentro e fora dos prédios dos aquários, que expandem sua pesquisa para fora das paredes – têm mostrado interessantes e inovadores resultados. Entre algumas das linhas mais promissoras estão estudos sobre:

  • Retenção de microplásticos
  • Antecipação às crises hídricas
  • Controle bactérias patogênicas da água potável
  • Pesquisas genéticas

São temas atuais, cujos resultados permitem que: 1) custos e agentes químicos sejam reduzidos no tratamento de reservatórios urbanos, 2) a economia agrícola seja melhorada, 3) abastecimento doméstico de água otimizado e 4) a pesca receba suporte para não causar colapsos, 5) além de firmarem bancos genéticos vivos (o nosso Bioparque Pantanal tornou-se referência mundial ao registrar a centésima reprodução de espécies de forma natural, sem indução hormonal, o que atesta a excelência em parâmetros de bem-estar e nutrição animal naquele lugar).

E tem mais, há o que reflete nos estudos de bem-estar humano.

Psicofisiologia

Todo artigo era para chegar aqui rsrsrs. Veja se concorda comigo: muitas vezes, quando paramos diante de um aquário em harmonia, seja ele um pequeno plantado em nossa sala ou um gigante tanque de um aquário público, somos imediatamente transportados para um estado de relaxamento. O nado dos peixes entre troncos e plantas parece ter um propósito puramente contemplativo, mas, é justamente aqui que digo que há uma verdadeira “ciência oculta” que impacta a nossa vida de formas que raramente imaginamos.

Um exemplo que fundamenta essa “ciência oculta” é o estudo da psicofisiologia, a qual demonstra que a observação de ecossistemas aquáticos – até mais que os terrestres – reduz significativamente a pressão arterial e os níveis de cortisol. Esse dado, longe de ser apenas uma curiosidade, fundamenta hoje o design de ambientes hospitalares e locais de terapias para pessoas com transtorno de estresse pós-traumático (PTSD), provando que a “dose” de natureza aquática possui eficácia clínica mensurável.

Não vi artigos muito recentes, e o que li confirma isso explicitamente, que há atualmente uma carência de pesquisas relacionadas aos benefícios dos ambientes aquáticos para a saúde e o bem-estar humano. As referências iam até 2015 (nem tá tão velho assim, vai rsrs) e o assunto aqui foca no que se chama “Teoria da Restauração da Atenção (ART)” – basicamente isso é o nosso mecanismo interno que nos permite inibir distrações para focar em uma tarefa específica (ex: trabalho, estudo, dirigir no trânsito etc.).

Como tudo no corpo da gente, há um custo biológico em se manter esse foco constantemente. Quando a gente se cansa, surgem sintomas como: irritabilidade, incapacidade de planejar, maior propensão a erros e dificuldade em processar pistas sociais (o que torna as pessoas menos cooperativas).

Agora, olha isso, que legal! O estudo fala das “doses” de natureza na pessoas, sugerindo que uma maior riqueza de espécies está associada a um maior bem-estar psicológico. Isso se viu ao observar que as reações das pessoas eram diferentes em relação aos níveis de biota subaquática, as quais “melhoravam” diante do aumento da vida marinha durante, por exemplo, um evento de repovoamento. O experimento foi realizado também em aquários públicos que passavam por reformas e começavam a liberar os recintos e a repovoar os tanques aos poucos, o que ajudou a dar esse destaque nos resultados.

Diferentemente de um filme de ação ou um jogo de videogame, que prendem a atenção de forma intensa e dramática, a natureza oferece uma fascinação suave, que permite que a vigília constante possa ser desligada e fazer o sistema humano realmente descansar. Essa transição suave se resume em quatro principais estágios:

  • Limpeza de pensamentos: o indivíduo relaxa e deixa as preocupações imediatas passarem.
  • Recuperação da atenção direcionada: o esforço mental começa a descansar e a capacidade de foco é recarregada.
  • Resolução de “assuntos inacabados”: em ambientes naturais muito imersivos, a pessoa começa a processar pensamentos e sentimentos que foram deixados de lado pela correria do dia a dia (agora sei como resolvi os problemas de minha dissertação e mestrado!).
  • Reflexão profunda: o estágio mais alto, onde o indivíduo consegue pensar sobre sua vida, prioridades e propósitos de forma clara.

Eu sabia da relação aquário com relaxamento, mas nunca tinha aprofundado o entendimento técnico-científico disso. O ser humano moderno carece da reaproximação com a natureza e aqui entendo melhor o porquê.

Por outro lado, não seria qualquer aquário capaz disso, por isso anteriormente usei a expressão “aquário em harmonia”, pois o método parte do preceito de que é necessário que os elementos do ambiente devem estar ligados de forma lógica, para acionar a conectividade. Deve haver a sensação de que há mais para explorar além do que se vê imediatamente. Penso eu, que isso até firma as dicas que repasso em meus artigos sobre a importância do layout, da compatibilidade das espécies, do espaço suficiente, ou seja, dar a oportunidade das espécies ali mantidas se manifestarem como fariam na natureza, nos maravilhando e surpreendendo.

Esse efeito não se limita apenas à observação ocasional. Uma curiosidade desses estudos é que milhares de pessoas que aprendem a mergulhar, visitam aquários públicos, possuem seus próprios aquários ou assistem a documentários subaquáticos, além de atestarem seu gosto por isso, buscando compartilhar esse ganho pessoal com outros. Ou seja, são apanhadas num turbilhão de bem-estar, associando o máximo de atividades correlacionadas e tentam passar isso à frente.

E você, já admirou seu aquário hoje?

Eis que chego ao fim de mais um artigo, que sempre busca trazer informação para gerar mais vontade de questionar e aprender.

Espero que tenha sido útil de alguma forma.

Agradeço a leitura e vejo você no próximo (que sai já já)! Até lá !

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