Não há como escrever textos apenas para os aquaristas “criados”, não é mesmo? O hobby está sempre recebendo aporte de novos visitantes e cabe aos mais experientes oferecerem ambientes de acolhimento aos que chegam nesse mundo multidisciplinar. O artigo de hoje é para isso.
Mesmo em pleno século XXI ainda nos deparamos com pessoas recebendo informação inadequada, se frustrando no aquarismo, e por isso não me canso, de tempos em tempos, de reavivar o significado do hobby e mostrar caminhos apropriados dentro dele. Muitos de nós, aquaristas, somam seus propósitos às responsabilidades, o que resulta em verdadeiros espetáculos em termos de informação, métodos e, claro, aquários.
E é nessa vibe que convido você a conferir o que temos pra hoje! Bora lá!
O que é um aquário?
A primeira coisa que costumo falar é que um aquário não se resume a um mero pote de vidro com água, ele é muito mais que isso; é um resumo de conhecimentos, práticas e vida. Gosto também de acreditar que conhecimento, além de libertador, tem o potencial de evitar sofrimento animal.
Pois bem, vamos às definições. Um aquário é um ecossistema artificial que sempre dependerá 100% do aquarista, pois nele não estão presentes as forças e os agentes reguladores e recicladores que o ambiente natural possui. Assim, num aquário precisamos providenciar literalmente tudo: temperatura, circulação de água, luz, comida, limpeza…e por aí vai.
É fato que no hobby temos de nos preparar – tipo estudar mesmo, isso traz à tona a ideia de que o aquário também é uma escola, pois nele aplicamos, pelo menos, matemática, biologia, química e ecologia.
E para por aí? Para mim não. Quando atingimos o ponto em que passamos a fazer nosso melhor para que peixes, camarões, plantas e outros organismos cresçam bem e desenvolvam seus hábitos e interações, vemos rapidamente que um aquário também é uma ponte que nos aproxima da natureza. O aquarismo aprimora o nosso olhar e sensibiliza nossa postura.
E por fim, mas não menos importante, algo que por vezes passa batido quando tentamos definir um aquário, é saber que ele é tal qual uma atividade terapêutica, pois nos treina o raciocínio, o planejamento e a paciência, a capacidade de estar concentrado no simples ato de observar a vida no aquário ao mesmo tempo em que se descansa a mente. Nos tempos corridos e imediatistas de hoje, isso é ouro meu amigo!
Pensando dessa forma, simplesmente não consigo ver num aquário um mero recipiente com água.
10 Passos para o Sucesso!
Com uma definição ampla dessas, não podemos, tampouco, achar que tudo se resume no ato de entrar numa loja e sair de lá com o produto pronto para montar em casa e já curtir à noite os peixes nadando. Aquarismo não rima com imediatismo, por mais que haja quem tente; o hobby requer paciência e, sobretudo, planejamento; ou seja, ao invés de correr, caminhamos passo a passo.
Pensando nisso, resolvi resumir em 10 passos básicos a forma de se entrar no hobby e se deparar com o mínimo de imprevistos e frustrações, os quais podem fazer alguém desistir antes mesmo de adentrar a fundo essa maravilha. São eles:
Passo 1: Planejamento Reverso (Peixe → Água → Equipamento). Não tem como ser diferente, pois nós sonhamos e é isso que nos move. O aquarismo nos dá esse espaço, então, pergunte-se: “que peixes eu quero?” (guppy, betta, kinguios, etc.) ou “que imagem de aquário eu quero na minha sala?” (comunitário, plantado, só rochas etc.). Perguntas desse tipo serão interessantes para destravar o processo. Saiba que a partir dessa definição é que as outras serão definidas. Por exemplo, se você decide por um guppy será necessário um aquário de água mais quentinha, se for um kinguio, essa necessidade já não se aplica, mas o aquário deve ser maior.
Passo 2: Orçamento Disponível. Como é um fator limitante para muitos de nós, resolvi elenca-lo já no começo como o primeiro passo entre o sonho e a realidade. Existem inúmeras opções no mercado, assim como as qualidades de produto. Uma regra, no entanto, impera: improvisar ou optar apenas pelo mais barato pode custar mais caro depois! Escolha produtos com base nas recomendações de aquaristas – faço indicações de produtos básicos nos passos 4 e 5. Considere não só montagem, mas também a manutenção (testes de água, gasto de energia elétrica, alimentação etc.).
Passo 3: Escolha do Local. Aqui você já sabe o que quer e que tem recursos para iniciar o projeto. Parece besteira, mas não basta ter um “espaço disponível em casa”. Aqui destaco dois pontos que afetam o sucesso: o local e a base de sustentação. Para saber onde fica um aquário digo que ele deve ficar longe de uma janela onde a claridade ou o sol direto possam interferir, gerando excesso de algas que facilmente desanimam o aquarista; também não o coloque em locais de passagem como corredores, onde esbarrões e excesso de movimento possam comprometer a segurança e integridade do vidro ou estressar os peixes. Sobre onde acomodar o aquário em si, o móvel ou a bancada, se ele não for projetado especificamente para suportar o peso, encontre alguém que saiba avaliar a superfície, pois ela não poderá sequer envergar um pouco (tábuas de madeira fazem isso), visto que o vidro não tem elasticidade. Isopor sob o vidro de base sempre é bem-vindo.
Passo 4: Ir às Compras #1. Minimamente são necessários: 1) um aquário de tamanho adequado (caso não saiba, contrariando o senso comum, aquários maiores são mais fáceis para iniciantes, pois oferecem maior resiliência química e térmica; volumes pequenos oscilam rápido demais, dando menos tempo de resposta do aquarista, o que pode ser bem ruim), 2) um bom filtro e respectivas mídias filtrantes (trata-se do coração do sistema), 3) termostato (para a maioria dos peixes); 4) iluminação básica (não é apenas estética, especialmente se houver plantas naturais); 5) substrato adequado (cascalho de rio de granulação uniforme, areia de quartzo e/ou substrato fértil, se plantado – eu não sou dos que recomenda as pedras artificialmente coloridas) e 6) decoração própria de aquário (artificial ou natural);
Passo 5: Ir às Compras #2. Separei as compras em duas partes apenas para dar ênfases diferentes. Neste ponto constam os itens de uso constante e manutenção. São eles: 1) uma boa ração, 2) anticloro, 3) testes de pH e Amônia, 4) sifão, 5) rede de capturar peixes, 6) limpador magnético ou bucha que não arranha vidro, 7) balde e 8) jarro plástico graduado.

Passo 6: Limpeza Inicial. Aqui você limpa tudinho para receber os habitantes, sem o uso de produtos químicos: cada aparelho, o substrato (se não houver indicação contrária) e os itens de decoração, tudo deve ser limpo.
Passo 7: Instalação dos Equipamentos. Garanta que ao conectar os aparelhos à rede elétrica você esteja com as mãos secas. Se houver crianças em casa, mantenha o controle rotineiro de não as deixar alcançar a fiação e as tomadas. Filtros, bombas e aquecedores só devem ser postos a funcionar com o aquário cheio de água.
Passo 8: Maturação do Aquário. É hora de encher o aqua com água limpa, evitando despejar diretamente no substrato e com isso turvar a água – lance-a sobre uma pedra grande e, se não houver, coloque um pires para ajudar a dispersar a força da queda da água. Usar o anticloro quando a água vem da rede pública de abastecimento. Agora começa o período de ciclagem (ciclo do nitrogênio que transforma a venenosa amônia em nitrito e, por fim, em nitrato, que é menos ofensivo). Aguarde de 3 a 6 semanas antes de colocar peixes, camarões etc.; o aquário precisa amadurecer biologicamente (importantíssimo: é o divisor entre sucesso e desastre) e você acompanha essa evolução por meio do teste de amônia (deve estar zerada!).
Passo 9: Povoar o Aquário. Os primeiros peixes vêm só agora! Saiba que não é qualquer peixe que se mistura num aquário. Escolhemos peixes com similares dietas, características de água (pH e temperatura, principalmente) e comportamento (ex: se você escolheu guppy como o principal, não há como colocá-lo com mordedores de nadadeiras, como os mato-grosso). Evitar superlotação é importante também, pois mais peixes significa mais manutenção, entre outros. Para iniciantes, sugiro escolher espécies resistentes (ex: paulistinha, kinguio, espadinha, plati, tricogaster), observando a compatibilidade entre espécies e os hábitos (cardume, casal, trio etc.).
Passo 10: Manutenção Básica (Rotina Simples). Forneça uma alimentação controlada, sem exageros. Faça

testes de pH e amônia regulares, especialmente nos primeiros meses. Deixe iluminação funcionando entre 8 e 10h diárias. De 15 em 15 dias é o momento das famosas “Trocas Parciais de Água (TPAs)”, que é um procedimento vital, onde retiramos do aquário, com ajuda do sifão, 15 ou 20% da água para substituí-la por água limpa e desclorificada. Use a água do aquário para a limpeza das mídias do filtro, pois usar água da torneira acaba com a biologia formada ali.
Definitivamente não se obtém um recipiente com água pensando em passos lógicos, não é mesmo? E aí, o que pensa a respeito desses passos? Você faria mais etapas? Menos? Outros passos completamente diferentes? Na verdade, o que realmente importa é o aquarista não decidir tudo de forma precipitada e imprudente, pelo contrário, o ideal é ler e questionar, fazendo as coisas com alguma base e planejamento. Há tanta boa informação disponível, não tem motivo para não dedicarmos um tempinho para absorvê-las!
Para você iniciante, já dou spoiler do próximo artigo: esclarecerei, em linguagem super simples, a vital ciclagem do aquário. Cola aqui!
E assim, despeço-me agradecendo a leitura! Até o próximo artigo! Sai já já!

Com Bravo de Bravura, e não de Braveza, Johnny Bravo (João Luís), escreve para revistas especializadas e para o blog da Sarlo há um cadim de tempo. Nessa jornada Julioverniana, após 20 Mil Léguas de textos, agora ele também desenvolve os roteiros para os vídeos de chamada do Sarlocast, onde você pode ouvir a sensual voz desse aquaman (tradução: homem de aquários).







