Evolução

Com essa história toda que venho trazendo aqui sobre os aquários gigantes para visitação, surgiu uma curiosidade para saber como eles surgiram, de quem teria sido a ideia e onde tudo começou.

Às vezes ficamos só olhando o vidro do aquário, vendo tudo funcionando bem, mas de vez em quando a mente turbilhona nas ondas do filtro canister e ficamos a pensar nos primórdios de tudo. Bem, fui atrás pesquisar sobre o histórico do aquarismo e deu nisso aqui ó…

Nos idos tempos da civilização…

Segundo a enciclopédia Britânica (site em inglês), “os primeiros ‘aquaristas’ conhecidos foram os sumérios – a mais antiga civilização conhecida da Mesopotâmia (sul do atual Iraque) – que mantinham peixes em tanques artificiais há pelo menos 4.500 anos”. Porém, dá para percebermos que a enciclopédia se confunde ao inferir que ter peixes num tanque seria equivalente a aquário, nessa época era mais provável que os peixes fossem guardados ali para fins alimentares.

Assim, esmiuçando mais a fundo, achei na National Geographic que “o primeiro aquário documentado data da dinastia Sung, na China, cerca do ano 960 d.C. e deu início a uma corrente, entre alguns monarcas orientais, de criação de peixes para exposição aos visitantes”. Embora pareça que tenhamos começado a falar de aquarismo, presumo que se tratasse apenas de lagos ou vasos. Isso porque para um aquário – nos moldes em que o nome foi concebido – precisaríamos de um vidro, certo? E pelo que vi, acredita-se que o vidro surgiu casualmente há cerca de 4.000 a.C., tendo um salto evolutivo com os romanos por volta de 100 a.C., atingindo o apogeu na Europa do século XIII (Idade Média), mantendo um caráter quase secreto até 1900. Os vidros planos, produzidos em escala, vieram só na década de 50 (76 anos atrás).

Nessa rápida olhadela na história, eu tomaria a ideia do protótipo de aquário a partir de um hobby burguês europeu iniciado no século XVI (com registros de importações de peixes ornamentais e tudo), que considerava o recipiente com peixes um objeto utilitário para um símbolo de luxo e arte, o qual remetia ao seu dono o status de inteligência e riqueza. Por que estou tão resistente a chamar isso de aquário? Porque embora já possuísse um vidro, até meados do século XIX a palavra “aquarium” (aquário) era empregada apenas na botânica para designar recipientes destinados ao cultivo tão somente de plantas aquáticas.

Antes de seguir mostro a foto abaixo onde está um exemplar raro do “objeto de arte”, conservado no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, Portugal, confeccionado num estilo artístico chamado de faiança (um tipo de cerâmica branca, porosa e de baixo fogo, coberta por um esmalte que a torna impermeável, brilhante e versátil para decoração). O item visualizado tem vidro transparente e um desses pés aí possui uma torneira para esvaziar o “aqua” e ajudar na limpeza.

FONTE: Foto de Rui Pinheiro / Museus e Monumentos de Portugal / Museu Nacional Soares dos Reis, retirada de https://www.nationalgeographic.pt/historia

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O Surgimento dos Aquários Públicos

Apesar de peixes já serem mantidos em recipientes de vidro em meados do século XVIII, foi apenas cerca de cem anos depois que a prática de manter aquários se firmou, impulsionada pela compreensão da interação entre oxigênio, animais e plantas.

Em 1832, a cientista Jeanne Villepreux-Power, na França, criou um dos primeiros “aquários” de vidro para pesquisar organismos marinhos, permitindo observar animais vivos com água circulando. Todavia, como vimos antes, no século XIX qualquer recipiente onde se cresciam plantas aquáticas era chamado “aquarium”, mas não tinha o significado de manter animais aquáticos. Foi Philip Henry Gosse (um naturalista inglês nascido em 1810 e falecido em 1888) quem cunhou a palavra “aquarium” em 1854, logo após ter dado todo apoio técnico para criar o The Fish House (A Casa do Peixe), no Zoológico de Londres. Agora tínhamos um recipiente com vidro, denominado aquário!

Certamente podemos chamar todos os precursores de aquário, quem sou eu para dizer que não, fiz apenas uma condução da linha de pensamento para chegar no primeiro item que foi chamado “aquário” e que corresponde ainda hoje ao que todos denominam de “aquário”.

Só para registrar, temos o fim do século XIX e início do XX como o marco para o surgimento e expansão dos aquários públicos; fiz um quadro com destaques dos aquários mais antigos do mundo, para ilustrar um pouco isso.

Quando Onde Quem Destaque
1853 The Fish House (Londres, Inglaterra – Zoológico de Londres) Philip Henry Gosse O primeiro aquário público do mundo
1856 Nova York, EUA, no American Museum P.T. Barnum O primeiro aquário público dos EUA
1898 Vasco da Gama Aquarium (Lisboa, Portugal) Albert Girard Ainda em operação
1904 Belle Isle Aquarium (Detroit, Michigan, EUA) George D. Mason e Albert Kahn Foi o aquário público mais antigo da América do norte em operação contínua até 2005

A Modernidade

Aquela concepção de aquário de esqueleto de porcelana, caros demais, foi aos poucos sendo substituída por recipientes com moldura de ferro de acesso menos elitista. E eu nomearia os anos posteriores a 1850 como o início do aquarismo, porque foi a partir dessa época que ele se popularizou e os primeiros livros dedicados ao tema foram publicados, como:

  • O Livro do Aquário e do Gabinete de Água (1856), por Shirley Hibberd, (título original: The Book of the Aquarium and Water Cabinet): com instruções práticas sobre a formação e manutenção de aquários de água doce e salgada, explicando como montar, povoar e cuidar de coleções aquáticas em diferentes épocas do ano; e
  • História popular do aquário de animais e plantas marinhas e de água doce (1857), por George Brettingham Sowerby (título original: Popular history of the aquarium of marine and fresh-water animals and plants): mais focado na história natural e na biologia dos aquários e seus organismos.

Nos dias de hoje, o aquarismo moderno se vale do distanciamento dos métodos rudimentares, focados na sobrevivência básica dos seres ali acondicionados, para um hobby potencialmente técnico, que abarca belas estéticas sem se desprender do bem-estar animal, garantido incrível diversidade de conhecimento e equipamentos disponíveis.

Posso ainda inferir que, ao destacar os principais aquários de visitação, vemos que há uma tendência e dedicação que os tornam complexos centros de lazer, educação e ciência, preocupados não somente com a questão comercial, mas consolidando-se como pilares da pesquisa (com destaque para a área marinha). Os artigos anteriores que escrevi aqui para o blog dão uma noção do quão avançados são os projetos e seus resultados, sendo que os reforçarei aqui, pois gosto de mostrar que aquários que recebem o empenho de seus donos ou empreendedores não são apenas prisões de peixes. Os artigos são:

E para finalizar, lembro que este artigo não é uma pesquisa científica, apenas uma busca de um entusiasta sobre o que aconteceu no passado deste caminho que trilho. Assim, sinta-se à vontade para questionar, discordar, concordar e seguir em suas próprias pesquisas, pois é assim que muitos braços constroem um “grande todo”.

E talvez seja justamente isso que mais me fascine nessa caminhada: perceber que, entre tigelas de cerâmica, vasos ornamentais, caixas de vidro burguês e colossos de acrílico com milhões de litros, existe uma mesma linha invisível costurando os séculos, chamada curiosidade humana. Mudam os materiais, refinam-se as técnicas, ampliam-se as estruturas, mas permanece intacto o impulso quase infantil de mergulhar nesse mundo aquático. Se hoje contemplamos gigantes públicos com engenharia impressionante, é porque lá atrás alguém resolveu olhar para a água contida num recipiente e enxergar algo além do óbvio. E, no fim das contas, talvez o aquarismo seja exatamente isso: uma soma de olhares inquietos que, juntos, transformaram simples tanques em janelas para outros universos.

Vamo que vamo! Vejo você no próximo artigo, que sai já já! Obrigado pela leitura!

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