Muitos peixes são ocasionalmente listados como “compatíveis” com os Neocaridina porque não são predadores especializados de camarões, mas na prática acabam sendo escolhas ruins devido ao comportamento, oportunismo alimentar, territorialidade, tamanho ou até exigências ambientais incompatíveis.

Se a ideia é manter uma colônia saudável de Neocaridina davidi, precisamos realmente considerar várias características, que juntas formam a compatibilidade, como vimos no artigo anterior. No entanto, existem alguns peixes que parecem compatíveis à primeira vista, por serem pacíficos, comuns em aquários comunitários ou até compartilharem parâmetros semelhantes com os camarões, mas que, na prática, não são boas escolhas e idealmente não devem ser misturados.

Hoje a ideia do artigo é incorporar um pouco mais de informação para aqueles aquaristas que pretendem ter neocaridinas prosperando em seus aquários, focando um pouco mais nos “bonitinhos, mas ordinários” e criando um ranking de compatibilidade. Sem mais delongas, bora ver o que tem pra hoje!

O que ainda temos de bons partidos?

Não queria partir diretamente para o “parece bom, mas não é”, sem antes citar alguns caracídeos. Vale apresentar alguns verdadeiros bons partidos, como estes três aqui, todos peixes de cardume, os quais considero excelentes opções, escolhidas conforme os critérios que havia falado no artigo anterior.

O foguinho (Hyphessobrycon amandae) é uma das melhores opções para aquários com Neocaridina, principalmente quando há boa vegetação, musgos e esconderijos. Trata-se de um peixe extremamente pacífico, de boca pequena e comportamento discreto. Filhotes recém-nascidos de camarão podem eventualmente ser capturados, caso fiquem muito expostos, embora isso ocorra em menor intensidade do que com a maioria dos pequenos caracídeos.

Prefere água com pH entre 5,5 e 7,2, GH de 2 a 10 °dH, temperatura de 24 a 28 °C.

O tetra neon (Paracheirodon innesi), embora apresente um risco um pouco maior aos filhotes devido ao seu hábito de explorar constantemente a coluna d’água em busca de pequenos organismos, pode coexistir com Neocaridina. Os camarões adultos normalmente são ignorados, mas uma população só tende a crescer de forma consistente quando o aquário oferece densa vegetação, musgos e refúgios para os recém-nascidos. É um peixe muito pacífico, de águas ligeiramente ácidas e macias, com pH entre 6,0 e 7,0, GH de 2 a 8 °dH e temperatura de 22 a 26 °C.

O rodóstomo (Hemigrammus rhodostomus) é outra excelente escolha. Apesar de possuir porte um pouco maior que os anteriores, seu temperamento é extremamente pacífico e raramente demonstra interesse pelos camarões adultos. Como praticamente qualquer outro pequeno caracídeo, o rodóstomo pode consumir alguns filhotes de camarão se tiver oportunidade, mas esse impacto costuma ser pequeno em aquários densamente plantados. Além disso, é uma espécie que funciona como excelente indicador da qualidade da água (quando não está estressado): sua intensa coloração vermelha diminui rapidamente quando os parâmetros se deterioram. Recomenda-se água com pH entre 5,5 e 7,0, GH de 2 a 8 °dH e temperatura de 24 a 28 °C.

As aparências enganam

Os não compatíveis são a maioria, todos nós sabemos, pois já vimos conversando sobre isso desde o primeiro artigo. Agora, o que quero chamar atenção é para o fato de que a gente olha com paixão pro peixinho, “fala esse aí eu conheço, ele não faria mal a uma mosca” e o promove a compatível para viver com camarões.

Primeira coisa que quero afastar é que não existe maldade aqui. Na natureza tudo se conecta de formas diferentes e preferiria falar em oportunidade, hábitos, exploração e por aí vai. Precisamos conhecer mais um pouquinho sobre nossos peixes prediletos antes de decidir comprar neocaridinas e misturar no aquário.

Colisas, por exemplo, normalmente são vendidos como peixes pacíficos, porém, na natureza alimentam-se frequentemente de pequenos invertebrados. Assim, quanto aos neocaridinas, gostam de beliscá-los, perseguir filhotes e, mesmo sem eliminar os adultos, são capazes de não permitir que os filhotes vinguem. Por causa disso não são bons companheiros para criação de Neocaridina. Poderia falar o mesmo para barbos e tetras maiores e mais ativos (Sumatra, Rosado, Tetra do Congo etc.). Botias, por sua vez, são especialistas em procurar alimento no substrato, podendo consumir camarões com enorme eficiência. Essa busca ativa, diferente do forrageamento exercido por Corydoras, me impede de recomendá-las para a convivência pacífica com os camarões.

Como destaque, eu trago três queridíssimos de público, que muita gente não imagina que não são boas opções para aquários de neocaridina.

O kinguio (Carassius auratus) é um exemplo clássico: embora alguns indivíduos convivam temporariamente com camarões adultos, a mistura geralmente não é recomendada. É um peixe relativamente pacífico entre peixes e não caça camarões ativamente, todavia, é um comedor oportunista: qualquer camarão que caiba na boca pode ser ingerido, além disso, revolve constantemente o substrato, perturbando os camarões e podendo arrancar plantas que lhes sirvam de abrigo.

Para o betta (Betta splendens), é bem provável que nem todos concordem comigo aqui, pois tem gente que mantém ele junto com camarões. Mas, por que alguns dizem que funciona? Primeiro porque alguns bettas ignoram camarões adultos, quando o aquário é bem plantado, permitindo certa convivência. Para mim, os problemas se devem a grande variação individual de comportamento, em que um betta pode ser tolerante e outro exterminar a colônia em pouco tempo, principalmente quando se trata de filhotes e de camarões recém-mudados (pós troca de carapaça: ecdise), que são extremamente vulneráveis. Além disso, o estresse constante faz os camarões permanecerem escondidos. Diante da imprevisibilidade eu o consideraria inadequado para quem deseja manter e reproduzir Neocaridina. Ainda assim, você verá que no elenco geral não o coloquei entre os piores.

O charmoso e gente boa Ramirezi (Mikrogeophagus ramirezi), parece compatível porque os exemplares são pequenos e podem ser relativamente pacíficos, porém, seus hábitos de defesa de território e de caça a pequenos crustáceos dificilmente permitiriam a uma colônia de camarões prosperar com eles como companheiros. Essa observação também vale para os ciclídeos anões em geral (ex.: Apistogramma, Kribensis etc.).

O ranking da compatibilidade

Eu nunca tento me passar por um sabichão do aquarismo, que tudo sabe e nada erra, assim, dentro das minhas pesquisas e experiências tento sempre explorar as possibilidades e acautelar os que se aventurarão. Bem, pensando assim e considerando o que trouxe nesses três textos sobre neocaridina, fiz um ensaio do que há de mais compatível e do que não pode de jeito nenhum, quando o assunto é manter e proliferar Neocaridina num aquário caseiro.

Explico a seguir como criei esse ranking, mas reforço dizendo que é um ensaio de um entusiasta e tem o intuito apenas de gerar reflexões e pesquisas, não de dizer que se trata de verdade absoluta.

Utilizei 6 critérios, tendo sido considerado o fator mais importante a predação sobre camarões adultos:

    1. Predação sobre camarões adultos
    2. Predação sobre filhotes
    3. Estresse causado aos camarões
    4. Compatibilidade dos parâmetros da água
    5. Comportamento e ocupação do aquário
    6. Facilidade de manter uma colônia se reproduzindo

A escala adotada foi a seguinte:

Com base nessa escala, nas espécies tratadas nos artigos e buscando lançar os holofotes sobre mais espécies, acabei propondo a seguinte lista de compatibilidade:

Bem, é isso pessoal! Ao longo destes três artigos procurei mostrar que compatibilidade de peixes com Neocaridina é resultado da soma de diversos fatores: comportamento, hábitos alimentares, ocupação do aquário, parâmetros da água e tamanho. O ranking apresentado, por sua vez, teve o objetivo de servir como ponto de partida para observação, pesquisa e tomada de decisão, buscando evitar frustrações.

É justamente por existirem tantas nuances que não considero os neocaridinas a melhor escolha para quem está começando no aquarismo. Entendo que são necessárias algumas manhas ou experiência, que adquirimos ao longo da caminhada.

Agradeço a leitura e espero ter contribuído de alguma forma para o seu aquário e para o hobby. Nos vemos no próximo artigo, que sai já já. Até lá!

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