Às vezes olhamos para os belos aquários plantados e ficamos intimidados por imaginar o quão difícil é ter um. Confesso que é um passo à frente, um upgrade de aquarismo, mas nem todos os aquários plantados são difíceis.
Eu diria até mais, para chegar a ter um aqua plantado impecável um dia é preciso começar por algum lugar. E é com palavras de incentivo que inicio este artigo, dizendo que existem aquários plantados menos tecnológicos e que exigem menor esforço de manutenção. É uma forma de experimentar o aquário plantado natural, sem se apavorar com inúmeros conceitos e informações demasiadamente técnicas logo de cara, nem gastar rios de dinheiro para ter um aquário natural, plantado e bonito.
Vamos ver o que tem pra hoje!
Começando com as Plantas Naturais
Muitos iniciantes associam plantas aquáticas a aquários sofisticados, com CO2, iluminação cara, fertilização complexa e alto esforço de manutenção, mas isso não é 100% verdade, uma vez que temos uma boa diversidade de opções dentro da temática “plantado”. Ressalto, no entanto, que não se trata de uma promessa de milagres, como “plantas que eliminam a necessidade de manutenção”. Elas até ajudam, mas não substituem os cuidados básicos.
Você pode estar se perguntando por que utilizar plantas naturais em um aquário. Bem, eu entendo que a presença de plantas naturais no aquário, além da obviedade de deixá-lo com aspecto mais natural e harmônico, serve de abrigo para peixes tímidos, redução do estresse dos animais, consumo de compostos nitrogenados, competição com algas e maior estabilidade biológica. E, sinceramente, ao trazer o aquarista mais para perto, diante da necessidade de manutenção, ajuda também no desenvolvimento de uma das qualidades mais raras (e tão necessária) à humanidade nos últimos tempos e excelente aliada do aquarista no hobby: a paciência.
Partindo de um preceito prático, pensei que se você consegue manter peixes “básicos”, provavelmente também consegue manter diversas plantas aquáticas resistentes. E será sobre essas que falaremos a seguir, dentro de um tipo de aquário que chamamos de low-tech.
O que é um aquário low-tech?
Um aquário low-tech é aquele que funciona sem tecnologias avançadas. Normalmente possui iluminação moderada, fertilização simples ou inexistente, substrato comum, plantas resistentes/pouco exigentes, dispensando a injeção de CO2.
E se você se pergunta agora “O que realmente é necessário para começar?”, é fácil responder: aquário, filtro, iluminação básica e termostato+aquecedor, se for ter peixes. E até que você pegue gosto pela coisa, podemos deixar de lado o cilindro de CO2, os substratos importados e fertilizantes caros, os sistemas automatizados e a iluminação profissional. Para fertilização das plantas, laterita e húmus de minhoca, pertencentes àquele aquarismo mais roots cabem bem; faço um alerta, porém: se optar por húmus ou substratos que soltam pó, providencie uma camada inerte (areia de filtro de piscina), a qual deve cobrir todo o substrato fértil, com pelo menos 3 a 5 cm de espessura. Se o substrato fértil vazar para a coluna d’água, o ambiente low-tech (que tem crescimento lento das plantas) será dominado por algas rapidamente. Ainda neste caso, evite peixes que tenham o costume de cavar o substrato ou se enterrar nele, rompendo a camada de isolamento.
Em termos de manutenção, eu ressaltaria a você a necessidade de apenas manter o ritmo de trocas parciais de água – TPAs que já existe (manter a limpeza básica do aquário), estabelecer um fotoperíodo (luminária acesa) de 6 a 8 horas, passar a remover as folhas velhas que venham a se acumular e podas ocasionais. Não é difícil, não é mesmo?
As plantas
Obviamente não elenquei aqui plantas exigentes e de crescimento explosivo. Aqui agrupei aquelas de crescimento lento ou moderado, de alta resistência, alguma tolerância a diferentes parâmetros, de baixa exigência luminosa e de fácil reprodução. Como ainda assim não se trata de “uma coisa só”, dediquei um espacinho para resumi-las.
Epífitas: plantas que crescem sobre troncos e rochas (precisamos fixá-las com linha ou cola), por possuírem rizomas, há o cuidado de não as enterrar.
- Anubias spp.: destacam-se pelas folhas rígidas, ovais e de um verde-escuro brilhante. São extremamente resistentes, adaptam-se a condições de baixíssima luminosidade e devem ser obrigatoriamente amarradas ou coladas a superfícies duras, pois enterrar seu rizoma no substrato causa o apodrecimento da planta. Eu as tenho em casa em terrários, ou seja, podem ser cultivadas fora d’água em ambientes de alta umidade; é comum ver aquários, cujos troncos ultrapassam a superfície, onde verdejam anúbias emersas.
- Microsorum pteropus: conhecida popularmente como Samambaia-de-Java, possui folhas longas, texturizadas e lanceoladas. É uma planta rústica que se propaga facilmente através de cortes no rizoma ou de mudas que nascem diretamente nas pontas de suas folhas mais antigas, demandando pouca manutenção.
- Bucephalandra spp.: não é das mais baratas, mas tem vigorado no aquarismo há algum tempo. Apresenta folhas densas com uma coloração que pode variar entre tons de verde-oliva, azulado e até nuances arroroxeadas sob a luz correta. Seu crescimento é bastante lento. Comporta-se como a Anubias.
Musgos: extremamente resistentes e de fácil cultivo, além de linda estética, fornecem excelentes refúgios para camarões e alevinos; como são moitas densas, acumulam sujeira facilmente, assim, pense sempre em limpar com sifão (exceto se estiverem sendo usadas pelos filhotes).
- Taxiphyllum barbieri: o popular Musgo-de-Java é composto por filamentos finos e ramificados que se entrelaçam rapidamente, formando densos tufos. É uma das plantas mais versáteis do aquarismo, tolerando grandes variações de temperatura.
- Vesicularia montagnei: chamado de Musgo-Christmas devido ao formato de suas ramificações, que crescem para baixo e para os lados lembrando os galhos de uma árvore de Natal. Apresenta uma estrutura mais organizada, compacta e simétrica do que o musgo-de-java, exigindo podas regulares para manter o aspecto denso.
Plantas flutuantes: para quebrar o ritmo geralmente encontrado nas low-tech, temos estas que possuem crescimento rápido. São excelentes para o consumo eficiente de nutrientes e promovem sombreamento. O alerta que faço é porque podem proliferar rápido demais e a manutenção (retirada de plantas) precisaria ser constante – estas não estão entre as que eu mais indicaria; mas ainda poderiam ser colocadas numa categoria de low-tech, por não precisarem dos substratos, iluminação específica ou CO2.
- Salvinia: caracteriza-se por pequenas folhas flutuantes dispostas em pares, cobertas por minúsculos pelos hidrofóbicos que repelem a água e dão uma textura aveludada à superfície. Suas raízes submersas modificadas absorvem compostos orgânicos da coluna d’água com grande eficiência, ajudando a combater algas.
- Limnobium laevigatum: conhecida como Amazon Frogbit, possui folhas circulares, lisas e esponjosas que flutuam suavemente na superfície. Suas longas raízes verticais e ramificadas estendem-se pelo aquário, criando um visual selvagem muito apreciado e servindo de zona de sombreamento para peixes mais tímidos.
Plantas de substrato fáceis
Cryptocoryne wendtii: Uma planta de roseta muito adaptável que desenvolve folhas onduladas com cores que variam do verde ao marrom-acastanhado, dependendo da iluminação. Possui um sistema radicular forte e prefere estabilidade, podendo “derreter” suas folhas se houver mudanças bruscas nos parâmetros da água, rebrotando logo em seguida (também acontece quando ela é transferida da condição de emersa para imersa).
Sagittaria subulata: Planta gramínea que se espalha rapidamente pelo fundo do aquário por meio de estolhos laterais, formando um “tapete” baixo (e denso sob iluminação adequada). Em aquários low-tech, mantém um porte controlado na região frontal, sendo uma das opções de planta dianteira mais fáceis de manter sem a necessidade de CO2 pressurizado.
A figura abaixo mostra um aquário montado exclusivamente com espécies citadas neste artigo, demonstrando que é perfeitamente possível obter um resultado bonito e equilibrado sem recorrer a plantas exigentes ou equipamentos sofisticados. É ou não é lindo?

Posso concluir seguramente dizendo que o segredo para ter sucesso com plantas naturais não é começar com o equipamento mais caro, mas sim escolher espécies adequadas e aprender a mantê-las saudáveis. Um pequeno grupo de plantas resistentes pode transformar completamente um aquário e ensinar os fundamentos do aquapaisagismo sem complicações e sem grandes investimentos.
Bem, esta é apenas uma introdução ao aquarismo low-tech, um caminho acessível para quem deseja iniciar o cultivo de plantas naturais enquanto desenvolve experiência e sensibilidade para os próximos passos dentro do hobby.
Despeço-me agradecendo pela leitura e esperando você no próximo artigo, que sai já já! Até lá!

Com Bravo de Bravura, e não de Braveza, Johnny Bravo (João Luís), escreve para revistas especializadas e para o blog da Sarlo há um cadim de tempo. Nessa jornada Julioverniana, após 20 Mil Léguas de textos, agora ele também desenvolve os roteiros para os vídeos de chamada do Sarlocast, onde você pode ouvir a sensual voz desse aquaman (tradução: homem de aquários).







