Quem é que não viu o filme “procurando Nemo”, não é mesmo? Além disso, acredito que todos os aquaristas conheçam os peixes-palhaço, como são chamados aqui no Brasil os anemonefishes, nome dado a eles lá fora e que significa “peixes da anêmona”.

Eu tenho um apreço singular por esses peixes, tanto que mesmo não sendo minha praia falar de aquarismo de água salgada e sabendo que muita gente já conhece, resolvi fugir um pouquinho para dar um destaque a esse peixe e sua relação próxima com as anêmonas. Tem muita coisa interessante!

E é assim que sigo dizendo “bora ver o que tem pra hoje!”

Dados do Cartório

O gênero Amphiprion, que é o dos peixes-palhaço, inclui cerca de 30 espécies de peixes (todos marinhos), pertencentes à família Pomacentridae (onde também estão os sargentinhos e donzelinhas). Uma curiosidade: hoje em dia (desde 2021), este gênero englobou Premnas, o qual possuía uma única espécie (Premnas biaculeatus), conhecido no aquarismo como Maroon (lindão demais!). Agora todos são Amphiprion.

Os peixes-palhaço não pertencem a nossa fauna local. Todas as espécies provêm da região do Indo-Pacífico (entre os oceanos Índico e Pacífico), numa faixa grande de distribuição, que vai do Mar Vermelho até a Polinésia Francesa – veja no mapinha que fiz – onde ocupam principalmente regiões rasas e bem iluminadas dos recifes de coral. Adianto que nem todas as espécies ocorrem nos mesmos lugares. Na imagem, a área destacada mostra onde ocorrem os peixes-palhaço, no sentido geral.

faixa no Indo-Pacífico onde são encontradas as espécies de peixes-palhaço.

Embora mega famosos hoje em dia, eles começaram a fazer parte do aquarismo marinho de forma expressiva na década de 1970, impulsionados pelo avanço da aquariofilia moderna e das técnicas de coleta e transporte de animais vivos. A popularidade explodiu em 2003, quando o filme Procurando Nemo foi lançado.

Nos dias atuais, eles são amplamente criados em cativeiro, sendo que do total de cerca de 30 espécies conhecidas de peixes-palhaço, apenas duas delas respondem por mais de 90% do volume criado e comercializado no mundo inteiro: Amphiprion ocellaris (o “Nemo”) e A. percula. Outras consideradas comuns são: Amphiprion frenatus e Amphiprion clarkii.

4 das mais populares espécies de peixes-palhaço. Reforço o lembrete de que por serem, as imagens que uso, feitas em IA, elas devem ser tidas como referência apenas e não entendidas como tecnicamente aptas a servirem de imagens para identificação taxonômica.

As Anêmonas

Nós os chamamos de peixes-palhaço, mas lá fora, como disse antes, ele é chamado de peixe da anêmona. Isso porque toda espécie de peixe palhaço precisa ter uma anêmona para chamar de sua. Eles têm uma peculiar e estreita relação simbiótica com esses seres, os quais embora tenham corpo mole não são moluscos, mas sim aparentados dos corais e águas-vivas.

“Peraí, precisa ter uma anêmona? É isso mesmo?” Sim. Sem a anêmona, na natureza, um peixe palhaço é alvo fácil e suas chances de sobrevivência são muito reduzidas, pois por meio de seus tentáculos urticantes ela afasta potenciais predadores – o peixe, por sua vez, se vale de uma “imunidade diplomática” contra as toxinas da anêmona. Nesse caso aqui, é bom recordar que ele não nasce imune, o que acontece é que ele vai treinando seu corpo a produzir aos poucos um muco que não estimula as anêmonas a disparar seus mecanismos de veneno (cnidócitos – células urticantes); eles fazem isso tocando a anêmonas com diferentes partes do corpo até o muco se tornar efetivo.

“Mas ele morre se não tiver anêmona no aquário?” Não, exclusivamente por esse motivo, não. Há uma forte dependência ecológica, mas não fisiológica. A história da dependência às anêmonas muda nos aquários, onde a predação pode ser controlada pelas escolhas de companheiros, a alimentação chega mais fácil e a morada/proteção pode ser substituída (ex.: corais moles, macroalgas ou objetos podem lhes servir de “casa”, na falta de anêmonas adequadas).

Heteractis magnifica

“Então é só comprar uma anêmona e meu peixe-palhaço fica bem?” Não é bem assim. Apenas dez espécies de anêmonas são reconhecidas como hospedeiras naturais para os peixes-palhaço. “Mas, existe uma anêmona aceita por todas as espécies?” Não, nenhuma anêmona é hospedeira de todas as espécies de peixes-palhaço, entretanto, existe uma campeã absoluta, ou melhor, uma espécie mais “universal”, digamos assim: Heteractis magnifica. Ela pode hospedar 28 das cerca de 30 espécies de peixes-palhaço e, talvez por isso, muitos autores a considerem a anêmona ancestral da simbiose. Dentre os peixes, o A. clarkii é o mais generalista, pois associa-se a praticamente qualquer uma das 10 espécies de anêmonas hospedeiras, enquanto, o A. biaculeatus habita exclusivamente a anêmona Entacmaea quadricolor na natureza.

Só de curiosidade: um peixe encontra sua anêmona bem no início da vida. “Como assim, ele não nasce na anêmona?” Não não. Os pais depositam os ovos num local próximo à proteção da anêmona, mas não nela. O macho monta a guarda. As larvas são levadas pelas correntes e depois de dias é que descem e, nesse momento, precisam encontrar uma anêmona adequada para sobreviver (atraídos por sinais químicos e visuais).

Hermafroditismo Protândrico Sequencial

“É o que?!” Para entendermos esse “xingamento”, basta focarmos que isso se refere a uma característica da conformação do aparelho reprodutivo que se reflete numa rígida estrutura organizacional/populacional; não precisa decorar nome difícil.

Tudo começa com o fato de que os peixes-palhaço nascem machos – tecnicamente nascem “indiferenciados”, desenvolvendo órgãos reprodutivos masculinos primeiro. Com o tempo, o crescimento e, principalmente, as interações sociais, os de comportamento mais dominante passam por uma mudança de sexo irreversível: tornam-se fêmeas. Uma vez esse peixe, tendo encontrado sua posição de matriarca na anêmona, nenhum outro ali virará fêmea enquanto ela lá estiver.

“Como funciona isso na prática?” Cada anêmona normalmente abriga um casal reprodutor, isolado ou associado a até 4 outros indivíduos não reprodutores – embora esse número possa variar conforme o tamanho da anêmona. Dentro de cada grupo, existe uma hierarquia baseada no tamanho: a fêmea é a maior, o macho reprodutor é o segundo maior e os indivíduos não reprodutores tornam-se progressivamente menores à medida que se desce na hierarquia. Se a fêmea morre, o macho muda de sexo e torna-se a fêmea reprodutora, enquanto o maior indivíduo não reprodutor torna-se o macho reprodutor.

A manutenção das diferenças de tamanho pode evitar conflitos, pois os subordinados não representam uma ameaça aos dominantes. Essa organização social e reprodutiva é uma regra geral válida para todas as espécies do gênero Amphiprion (assim como para o gênero relacionado Premnas).

E por falar em regras, lembro que este peixinho também possui algumas. Me refiro aos parâmetros que devemos seguir para que ele siga bem no aquário. Não há espaço para abordar todas, mas peguei uma referência geral e chequei para passar como base – vide imagem – mas a dica é ver, numa fonte confiável, que espécie você adquiriu (ou adquirirá) e seguir à risca o que lá estiver indicado.

E assim chegamos ao fim de mais um artigo. A escolha do peixe-palhaço não foi aleatória para mim, só por causa de sua popularidade, mas sim aproveitar mais uma encantadora história para reacender a chama da importância de entendermos a natureza como algo conectado, orgânico e multidimensional.

Se nos permitimos ao mergulho na vida desse bichinho, no fim das contas, vemos que sua vida vai muito além do charme. Seja na complexa dança-das-cadeiras reprodutiva ou na alquimia biológica de produzir um muco sob medida para viver entre dardos venenosos, a relação entre peixes-palhaço e anêmonas é um dos muitos exemplos fascinantes de cooperação na natureza. Ah se nós humanos fôssemos assim, que legal seria, não?

Para nós, aquaristas, fica uma importante lição: conhecer o comportamento natural dos animais é o primeiro passo para mantê-los de maneira responsável. Quanto mais entendemos de onde eles vêm, como vivem e do que realmente precisam, melhores serão as condições que conseguimos oferecer em nossos aquários. Afinal, observar um peixe saudável reproduzindo comportamentos naturais é uma satisfação muito maior do que simplesmente admirar suas belas cores.

E é com essas últimas palavras que me despeço, agradecendo a leitura e esperando você no próximo artigo, que sai já já. Até lá!

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