Qualquer aquarista, em algum momento de sua vida no hobby, já se deparou com esse “problema”: as impertinentes algas que aparecem em todo canto sem terem sido convidadas.

Usei aspas anteriormente para frisar que nem sempre as algas devem ser encaradas como problemas. Posso também adiantar que nem tudo que chamamos de algas é realmente alga e que certas vezes podemos até confundir os termos “alga” e “planta aquática”, pois embora sejam livremente usados, há diferenças fundamentais na maioria dos casos.

Neste artigo vou falar justamente sobre essas diferenças, as principais causas de surgimento e pincelar as formas de combate, quando elas se tornam visivelmente indesejáveis.

Então, bora ver o que tem pra hoje!

Alga ou Planta Aquática?

Para deixar mais claro, vamos começar explicando o que torna as algas e as plantas aquáticas distintas entre si: complexidade estrutural. Cientificamente, as algas são organismos fotossintetizantes simples, que não possuem tecidos verdadeiros (raízes, caules, folhas ou vasos condutores de seiva), absorvendo nutrientes diretamente da água; crescem de forma rápida e oportunista e pertencem a grupos evolutivos distintos. Reforço, porém, que não se pode considerar o tamanho como uma questão estrutural para a diferenciação aqui pretendida, pois as gigantescas Kelps marinhas são algas, não plantas superiores.

Plantas aquáticas, por sua vez, são a grande maioria daquelas que vemos quando vamos às lojas de aquário (cabomba, Vallisneria, Echinodorus e tantas outras). Quase todas elas são plantas superiores (angiospermas = plantas com flores), com tecidos diferenciados, órgãos bem definidos e sistemas internos de transporte.

Essa diferença estrutural também se reflete na desenvoltura dentro do aquário. Enquanto as plantas aquáticas crescem de forma mais estável e previsível, competindo por luz e nutrientes e ajudando a equilibrar o sistema, as algas, devido ao oportunismo característico, proliferam rapidamente quando há excesso de luz, nutrientes desbalanceados, CO2 instável ou acúmulo de matéria orgânica, numa explosão demográfica chamada bloom.

Agora, há uma exceção que gostaria de adicionar: existe um meio-termo das plantas de aquário que não são nem algas, nem plantas superiores. Musgos e Riccia spp., por exemplo, não têm raízes verdadeiras (apenas rizoides), não têm vasos condutores e absorvem água e nutrientes diretamente do ambiente, ainda assim não se encaixam em nenhuma das definições. Estas são plantas primitivas com alguma estrutura organizada, mesmo que simples (ex.: rizoides), com um crescimento definido e estável, se assim posso dizer. Ainda assim, costumamos classificá-las como plantas aquáticas, mesmo não sendo superiores.

Acredito eu que, de uma maneira mais bem-humorada (embora eu a ache injusta), podemos ainda definir que plantas aquáticas são aquelas que queremos cultivar e as algas são aquelas que queremos combater. E é com essa polêmica definição que dou seguimento ao artigo para mostrar quem são essas “vilãs”.

O Bom Combate

Antes de dizer quais são as algas, objeto do combate, e como remediar os cenários de desequilíbrio, é bom salientar que, mais cedo ou mais tarde, o aquarista entenderá que “algas sob controle equivalem a aquário equilibrado”. Explico. Veremos logo adiante que para cada descompasso que gere um bloom (a proliferação excessiva e rápida) há, nos bastidores do aquário, as causas do desafino, sendo as algas apenas os indicadores da imperfeição (do tipo e do grau).
Para combatê-las, no entanto, será necessário munir-se das armas adequadas. O combate é mediado por ferramentas simples de aquarista, como o sifão, a espátula com lâmina, a bucha (daquelas que não riscam o vidro), escova, seringa, filtro UV e limpador magnético de vidro. Um bom combate exige as ferramentas corretas, já que as algas são combatidas de forma distinta.

Os testes de parâmetros – especialmente os de amônia, nitrato, fosfato, CO2 – são as ferramentas de inteligência para otimizar o foco do combate.

Sobre a estratégia do combate, como não existe uma fórmula única de controle de algas – embora alguns ainda tentem uniformizar tudo – pensei em falar das seis principais algas (na minha opinião) que surgem nos aquários de água doce e tentar explorar, uma a uma, como se lida com seus blooms.

São elas, das menos preocupantes para as mais preocupantes: green spot, filamentosas, algas marrons, “água verde”, peteca e cianos. Esses nomes, porém, não estão falando de espécies, mas de grupos, que por vezes englobam vários gêneros, ou seja, em cada tópico abaixo me referirei a várias espécies com as mesmas características visuais e biológicas.

Green Spot

As algas green spot são pequenos pontos verdes circulares e rígidos que aderem fortemente ao vidro e às plantas de crescimento lento (ex.: Anubias e Microsorum). Sua proliferação indica baixos níveis de fosfato ou desequilíbrio entre nitrato e fosfato (este muito baixo); também podem surgir por excesso de iluminação, direta do sol ou fotoperíodos superiores a 10h. Embora sejam esteticamente incômodas, não prejudicam os peixes. Por serem incrustantes e sésseis não podem ser removidas com as mãos ou sifonagem comum, sua remoção normalmente exige raspagem manual com lâmina ou esponja; são resistentes à herbivoria, ou seja, a maioria dos animais herbívoros têm dificuldade de eliminá-las, embora os caramujos Neritina sejam bons para a tarefa. Para que não retornem, será necessário o ajuste na fertilização de fosfatos. Sempre convém lembrar que plantas aquáticas naturais no aquário competem pelos nutrientes com as algas, assim, manter as plantas saudáveis e competitivas é uma ótima dica; avalie os níveis de CO2 durante os períodos de luz, impedindo que caiam abaixo dos valores requeridos pelas plantas usadas ou que oscilem demasiadamente.

Filamentosas

As algas filamentosas parecem fios de cabelo verdes ou cinzas que se enrolam em plantas e decorações; na verdade, podem variar de fios finos e sedosos (como cabelos) a redes densas e resistentes. Costumam estar associadas ao excesso de ferro e outros micronutrientes, ou excesso de luz aliado ao baixo nível de CO2. As algas filamentosas apresentam alta capacidade de absorção direta de nitrogênio amoniacal (amônia e amônio) e nitrato, sendo que a proliferação destas algas também pode indicar picos de tais substâncias no aquário. São preocupantes se houver um bloom significativo, que é quando podem sufocar plantas ao cobrir suas folhas, impedindo a fotossíntese. O controle das filamentosas precisa de algumas ações: 1) remoção é manual (ex.: sugando com mangueira ou enrolando em uma escova de dentes ou pinça), 2) controle biológico mediante a introdução de comedores de algas (ex.: comedor de algas siamês e camarões Amano – Caridina multidentata), 3) correção dos elementos e compostos químicos por meio de Trocas Parciais de Água – TPAs e 4) a redução do fotoperíodo para 6 a 8h (pode ajudar, mas somente associada às outras intervenções).

Algas Marrons

As algas marrons (diatomáceas) são identificadas por aquela película marrom comum em aquários novos, indicando justamente que o ambiente está numa fase inicial (ciclagem) e que há silicatos na água. A sílica, que forma a parede celular da diatomácea (feita de dióxido de silício – SiO2), pode vir da água da torneira, dos substratos novos e das rochas. Normalmente não é uma alga preocupante por ser quase sempre temporária, colonizando os ambientes onde há baixa competição biológica e a microbiota é instável. No controle entra a paciência (costumam sumir sozinhas), uma limpeza manual leve (são de fácil remoção) e, se for o caso, o uso de água com menos silicato (só se persistir mesmo). O controle biológico pode ser feito com o peixe limpa-vidro (Otocinclus affinis), caramujos (Neritina e Physa) e até mesmo camarões, os quais embora menos eficientes que os peixes e caramujos (para esta alga específica), ajudam a manter as folhas das plantas limpas. Blackout não serve para controlá-las, visto que toleram baixa luz muito bem.

Água Verde

Quanto à água verde, ela se deve ao efeito visual de um bloom de algas unicelulares microscópicas que ficam em suspensão e que deixam a água em tonalidades esverdeadas, turvas, com baixa transparência. Sua reprodução é extremamente rápida (divisão celular exponencial). Esse fenômeno reflete um pico de nutrientes associado à luz forte – normalmente incidência direta da luz do sol – e a instabilidade biológica do sistema (comum em aquários novos ou de biologia imatura). Os compostos químicos que influem são o amônio, a amônia (tal qual as filamentosas), o fosfato e o nitrato, combinados com baixas concentrações de CO2. O problema imediato é estético, nada mais que isso, sendo solucionável com filtro UV, blackout de 3 a 5 dias (como fica sem luz, convém aumentar a oxigenação para os demais seres), trocas de água frequentes (TPAs) e melhoria na filtragem biológica. Todavia, dependendo da quantidade de algas, à noite (ou durante o blackout), quando a fotossíntese cessa e a respiração continua, o excessivo consumo de oxigênio pode ser perigoso para os peixes, em casos de altas densidades populacionais e filtros de baixa eficiência em oxigenação. O controle biológico é menos comum, pois são recomendados microcrustáceos que se alimentam de fitoplâncton, como as dáfnias, porém, em aquários com peixes, estas seriam devoradas antes de mostrar sua eficiência no combate às algas.

Peteca

Essa costuma irritar bastante os aquaristas, experientes ou inexperientes, pois é difícil de remover. A alga peteca se assemelha à cabeça de um pincel. Tecnicamente é uma alga vermelha (Rhodophyta), porém, sua aparência é escura (preto, verde e marrom), aderem fortemente em folhas, troncos e equipamentos – tonalidades vermelhas aparecem apenas quando morrem. Normalmente indicam as baixas concentrações ou a instabilidade de CO2 (flutuação e má distribuição), circulação anômala de água e o acúmulo de matéria orgânica. A peteca não surge simplesmente por haver nutrientes (nitrato ou fosfato) na água, isso deve estar associado ao fato das plantas aquáticas estarem debilitadas, não gerando competição. Para eliminar petecas, além da necessidade de se estabilizar o CO2 (até porque as plantas superiores sofrem muito com carbono instável) e reduzir matéria orgânica acumulada (eliminar zonas mortas no aquário), será requerida uma limpeza manual, tanto a escovação de troncos e rochas FORA DO AQUÁRIO como a remoção de folhas amplamente tomadas (em casos extremos não há salvação para as plantas). Alerta: escovar ou fragmentar petecas dentro do aquário pode ampliar a infestação. Por fim, ainda há a aplicação localizada de água oxigenada (10 volumes); o procedimento se resume em: 1) desligar a circulação de água, 2) fazer a aplicação diretamente na alga, 3) aguardar alguns minutos e 4) religar a circulação. Especialmente quando forem muitas, não faça o tratamento em todas elas de uma vez.

Cianobactérias

As cianos, ou cianobactérias, como o próprio nome já indica, não se trata de algas verdadeiras, mas colônias bacterianas fotossintetizantes que formam uma película viscosa, de cor roxa, verde ou preta sobre o layout do aquário (plantas, rochas, troncos, vidro…tudo); têm um cheiro característico ruim (mofo ou terroso), muitas vezes exalado pelo aquário. Elas representam um dos problemas mais persistentes e visualmente desagradáveis em um aquário. São preocupantes pois algumas espécies podem liberar cianotoxinas que, em altas concentrações, são prejudiciais a peixes e invertebrados. São capazes de sufocar outras plantas, impedindo-as de fazer fotossíntese. O indicativo que elas trazem é de nitratos extremamente baixos ou áreas com zonas mortas de circulação, onde a matéria orgânica se acumula. Um segundo indicativo seriam os níveis altos de fosfatos. Por estar muito relacionada com os nutrientes, sempre é bom conferirmos se os filtros estão saturados, mal dimensionados ou com algum outro problema. Para o controle, o primeiro passo é aspirar o máximo por sifonagem (TPAs com sifonagem são essenciais nesse combate), melhoria da circulação e oxigenação, correção dos níveis de nitrato e fosfato e, em casos severos, será necessário o uso de antibióticos específicos (Eritromicina). Aqui, no entanto, por se tratar de antibiótico, não há como fugir à regra de contatar um veterinário, capaz de avaliar o impacto sistêmico e recomendar a medicação – não sei, nem posso, indicar quando isso é necessário, muito menos a dosagem. Por último, há a técnica do apagão – mais que blackout – onde, por 3 a 5 dias, o aquário é envolto por barreira que impeça qualquer passagem de luz; o CO2 é desligado e a oxigenação aumentada; peixes não são alimentados nesses dias. Se a causa não for resolvida, infelizmente as cianos voltarão.

E assim finalizo este apanhado de informações sobre as algas. Como vimos, “alga” é um termo guarda-chuva para vários organismos fotossintetizantes simples, onde alguns são algas verdadeiras, outros (como as cianobactérias) nem são algas de fato. O ponto-chave na questão das algas não é, primeiramente, matá-las, mas sim entender o recado que trazem, uma vez que elas sempre refletem algum indício sobre o equilíbrio do sistema (luz, nutrientes, fluxo e manutenção).

Agir apenas sobre os blooms de algas não surtirá efeito em seu controle. Sem cuidar da microbiota, sem a correta dosagem de CO2, nutrientes e luz, sem atentar para a superpopulação de peixes, sem o correto dimensionamento de filtros, sem as TPAs regulares, as proliferações sem controle sempre assolarão o aquário.

Assim, como conclusão, uma abordagem realmente efetiva para lidar com algas em aquários começa por uma mudança de perspectiva: as algas não são o problema em si, mas sim sintomas de desequilíbrios no sistema. Por isso, antes de pensar em eliminá-las, é fundamental entender o que elas estão indicando.

Espero que tenha trazido algo que agregue ao hobby! Vejo vocês no próximo artigo, sai já já! Até lá!

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