Muitos de nós aquaristas sabemos que reproduções de peixes no aquário acontecem sem que façamos nada para isso. Por outro lado, há aqueles que querem que isso aconteça, para ver como é a experiência de ver a vida de um peixinho surgir e se desenvolver a frente dos olhos. Afinal, acompanhar o comportamento de um casal reprodutor, observar a construção de um ninho, a postura dos ovos e, posteriormente, o nascimento dos alevinos é definitivamente uma oportunidade sem igual.
Mas, o que fazer para estimular peixes a se reproduzir no aqua? Já adianto que cada espécie, ou grupo de espécies, tem suas próprias exigências, digamos assim.
No artigo de hoje veremos algumas dicas de como você pode dar estrutura para os peixes se sentirem à vontade para se reproduzir ou mesmo induzi-los a isso. Ainda assim, a ideia não é transformar o assunto em um manual de reprodução de cada espécie, mas mostrar que existem diferentes estratégias reprodutivas e, consequentemente, diferentes maneiras de levar ou facilitar a reprodução dentro do aquário.
Então, bora ver o que tem pra hoje!
Técnicas para Estimular a Desova no Aquário
A partir de agora veremos, sob forma de explicações e exemplos, o que seria essa criação de um ambiente favorável à reprodução, quais seriam essas características e estruturas que o aquarista poderia proporcionar para que alcançássemos o desejado: ver peixes reproduzindo.
Como já adiantei não existe uma única fórmula para conseguir uma reprodução. Cada espécie possui uma estratégia reprodutiva própria e responde a determinados estímulos ambientais. Algumas constroem ninhos, outras depositam os ovos em superfícies, algumas simplesmente espalham os ovos pelo ambiente e há ainda aquelas que dão à luz filhotes já relativamente desenvolvidos.
Por isso, quando o objetivo é reproduzir uma determinada espécie, o aquarista precisa primeiro entender como aquele peixe se reproduz. A partir daí, algumas técnicas relativamente simples podem aumentar bastante as chances de sucesso. Claro que vingar os filhotes implica em muitas outras atenções, como isolar os reprodutores, ter à mão alimento apropriado para a idade dos alevinos etc., porém, nosso foco fica restrito a induzir ou criar ambiente para a reprodução.
Mas vamos lá, vamos ver o que de prático podemos oferecer aos peixes para ajudá-los a reproduzir dentro do aquário.
A Água como Gatilho para a Reprodução
Uma técnica muito utilizada no aquarismo é a realização de mudanças de água, como se fosse um sinal de que as condições ambientais estão mudando e uma época favorável à reprodução pode estar se aproximando. Isso acontece porque, na natureza, alterações na temperatura, no nível da água, no fotoperíodo, na disponibilidade de alimento e na composição da água podem coincidir com períodos favoráveis à reprodução, tal qual a chegada das chuvas.
Assim, dependendo da espécie, o aquarista pode utilizar uma mudança de água para provocar sutis diferenças ambientais, seja temperatura, seja dureza ou condutividade da água. É importante, entretanto, evitar mudanças bruscas e indiscriminadas.
Além disso, uma boa alimentação antes do período de reprodução costuma ser tão importante quanto a própria mudança de água. Peixes bem alimentados, saudáveis e em boas condições corporais apresentam muito mais chances de reproduzir do que animais submetidos a alimentação inadequada ou estresse constante.
Esta é uma característica geral, mas queria também mostrar detalhes mais técnicos que contemplam distintas espécies, uma vez que demandam distintas exigências – mais uma prova de como é fundamental se conhecer o peixe que se tem.
Cavidades ou Superfícies Protegidas
Para algumas espécies, encontrar e ocupar um território que ofereça abrigo e proteção pode ser um importante estímulo ao comportamento reprodutivo.
Os apistogramas, por exemplo, pertencem a um grupo de peixes que normalmente utilizam cavidades ou superfícies protegidas para realizar a desova. Nesse caso, é possível oferecer ao casal pequenas cavernas artificiais utilizando: pequenos vasos, tubos de PVC, cascas de coco ou pedras formando cavidades. A ideia desses itens é que a entrada da caverna seja suficientemente pequena para proporcionar sensação de proteção à fêmea.
Moitas Densas de Vegetação
Os tetras (neons, mato-grosso, imperador etc.), em especial, apresentam uma estratégia completamente diferente. Aqui os peixes não formam um casal, não constroem ninho, nem protegem os ovos ou a prole. A fêmea libera os ovos enquanto o macho os fertiliza durante a queda rumo ao substrato.
Esses peixes são conhecidos como hábeis comedores de ovos, inclusive os próprios, mas a sábia natureza os fez preferir desovar sobre moitas de plantas. Por isso, nos aquários destinados à reprodução de tetras, algumas técnicas são particularmente úteis. Uma delas é utilizar plantas que formem moitas, onde os ovos podem ficar escondidos – tal como na imagem, os tufos de plantas podem estar dentro de um recipiente, para ser removido facilmente.
Outra possibilidade é utilizar uma tela, grade ou camada de proteção que permita que os ovos caiam para uma região inacessível aos adultos.
Chamarizes específicos: mop e turfa
Falando de killifishes, quem os cria/conhece sabe que não é tudo uma coisa só. Há os killies que preferem lançar ovos na vegetação e outros que preferem enterrá-los como estratégia reprodutiva (vivem em ambientes que secam).
Para os primeiros, aquaristas constroem mops – esfregão, em inglês – para simular moitas. O mop é uma espécie de tufo de fibras, sintéticas e atóxicas, que imita a vegetação aquática, onde os peixes depositam os ovos, permitindo que o aquarista retire o mop e transfira os ovos para outro recipiente. É uma técnica simples, barata e extremamente útil para quem deseja controlar a reprodução.
Já os chamados killifish anuais, associados a ambientes temporários, os ovos são enterrados, permanecendo no substrato – num período de desenvolvimento interrompido ou retardado, permitindo que sobrevivam à seca – até que voltem as chuvas. No aquarismo, essa característica é aproveitada por meio da utilização de turfa ou outro substrato apropriado para a coleta dos ovos. Depois da postura, o material contendo os ovos pode ser retirado, preparado e mantido durante determinado período de incubação, conforme a espécie. Posteriormente, os ovos são novamente hidratados para provocar a eclosão.
Superfície Vertical para a Desova
Sem querer comparar diretamente a reprodução do acará-bandeira com a dos discos, que apresentam diferenças importantes quanto às características da água, há algo que ambos têm em comum: a utilização de superfícies relativamente lisas e verticais para a deposição dos ovos.
O que seria isso? Folhas largas, pedaços de ardósia, cones de desova, tubos ou placas verticais ou folhas das plantas artificiais.
Na natureza, folhas largas e outras superfícies podem cumprir essa função. No aquário, entretanto, o aquarista pode oferecer um substrato artificial. Uma vantagem do uso de um cone ou de uma placa removível é permitir que a desova seja transferida para outro aquário caso o aquarista queira criar os alevinos separadamente.
Mas faço uma ressalva: retirar a postura nem sempre é necessário. Casais experientes podem cuidar muito bem dos ovos e dos filhotes – diferentemente dos tetras, estes ciclídeos permanecem juntos cuidando da postura, a qual ventilam e protegem constantemente.
Proporção de Machos e Fêmeas
Sim, isso também pode fazer diferença no sucesso reprodutivo. Em muitas espécies de Apistogramma, por exemplo, precisamos ter um casal formado. Num caso desses, inserir muitos machos (os mais bonitos visualmente), pode gerar competição excessiva, estressar peixes e, com isso, se afastar do objetivo da reprodução.
Para acarás-bandeira ou discos, muitas vezes precisamos do grupo (uns 6 indivíduos) para esperar que, entre eles, haja uma natural escolha de parceiros. Ao se escolherem, se isolam e começam a se comportar como casal, ficando agressivos quando o período de reprodução se aproxima.
Nos tetras, por sua vez, ao invés de depender de um casal específico, os melhores resultados se dão quando se trabalha com pequenos grupos.
Para os Poecilídeos (família do guppy), são recomendados 1 macho para 3 fêmeas. Isso porque a atenção do macho é distribuída entre mais fêmeas, reduzindo a pressão sobre cada uma delas.
Outras Formas de Suporte
Há, claro, inúmeras coisas a serem ditas sobre muitas espécies, mas não há espaço para esgotar o assunto. O certo é sempre conhecer a espécie e tentar prover aquilo que ela precisa, valendo-se de lógica e bom senso após entender as necessidades.
Por exemplo, o macho de Betta constrói um ninho de bolhas na superfície da água, e, para tal, o aquarista pode oferecer algumas condições simples, como: manter a superfície da água relativamente calma, disponibilizar uma folha larga próxima à superfície ou plantas flutuantes; ou seja, materiais que sirvam de apoio ao ninho
Para um guppy – também para platys, molinésias e espadas – a situação é diferente: em condições adequadas, esses peixes tendem a se reproduzir espontaneamente, sem que seja necessário criar estímulos específicos. Aqui, portanto, a preocupação do aquarista costuma ser outra: aumentar a sobrevivência dos filhotes. Para isso, podem ser utilizadas plantas densas ou sistemas de separação que impeçam os adultos de alcançar os alevinos, tais como criadeiras.
No fim das contas, reproduzir peixes no aquário não é simplesmente apertar um botão e esperar que apareçam alevinos. A meu ver, se trata de entender como aquela espécie vive, quais sinais ambientais estão associados ao seu período reprodutivo e quais condições ela procura para realizar a postura e cuidar – ou não – de sua descendência. Assim, água adequada, temperatura, abrigo, vegetação e até a proporção entre machos e fêmeas podem fazer parte dessa equação – lembrando que cada peixe tem sua própria maneira de responder às condições ao seu redor.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores graças do aquarismo: quando deixamos de apenas manter peixes e começamos a observar e compreender seus comportamentos, participando e influenciando o dia a dia, transformando o aquário em algo maior que um local de confinamento de peixes, uma vez que ele que passa a revelar, diante dos nossos olhos, um pouco mais da natureza que existe por trás desse contexto.
Bem, termino aqui, esperando ter trazido um pouco mais de reflexões sobre o aquarismo. Agradeço sua leitura e aguardo você no próximo artigo, que sai já já. Até lá!

Com Bravo de Bravura, e não de Braveza, Johnny Bravo (João Luís), escreve para revistas especializadas e para o blog da Sarlo há um cadim de tempo. Nessa jornada Julioverniana, após 20 Mil Léguas de textos, agora ele também desenvolve os roteiros para os vídeos de chamada do Sarlocast, onde você pode ouvir a sensual voz desse aquaman (tradução: homem de aquários).







