Num debate sobre a origem dos peixes que povoam nossos aquas, podemos recair em inúmeras implicações éticas, ambientais e de saúde para os próprios peixes. Por acaso, você já pensou nisso? Será que importa ou faz alguma diferença para você ter peixes no aquário? Para tal, espero levantar algum questionamento significativo.

Quando colocamos um peixe dentro de um aquário, raramente pensamos na história que o trouxe até ali. Ele nasceu em uma criação? Foi retirado de um rio, lago ou igarapé? Quanto tempo viajou? Quantas mãos passaram por ele antes de chegar à loja? E, principalmente: qual dessas origens é melhor para o peixe, para a natureza e para o próprio hobby?

A discussão que trago aqui hoje, porém, não se volta para criar vilões e mocinhos, ela procura acender questionamentos que façam você se aproximar ainda mais do hobby de uma forma mais ampla, tornando-te responsável por aquilo que cultivas (adaptado da bela frase em O Pequeno Príncipe: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”).

Então, bora ver o que tem pra hoje! Já adianto que as perguntas elaboradas não necessariamente trazem respostas prontas, exatas ou determinantes, mas sim reflexos de raciocínio que buscam explorar mais de um ponto de vista para você elaborar suas próprias respostas.

De onde veio o peixe do seu aquário?

Essa é uma daquelas questões em que uma resposta rápida pode esconder uma realidade muito mais complexa. Há espécies que são reproduzidas em grande escala há décadas e cuja aquisição representa pouca ou nenhuma pressão direta sobre populações naturais. Há outras que praticamente não se reproduzem comercialmente em cativeiro e cuja presença no aquário depende da coleta de indivíduos selvagens. E existem situações em que a captura, quando realizada de maneira regulamentada e responsável, pode ser menos prejudicial do que determinadas práticas de criação intensiva.

Dela derivam outras perguntas, como:

1. Peixe criado em cativeiro é sempre melhor?

Não necessariamente. A criação em cativeiro elimina ou reduz a necessidade de retirar indivíduos diretamente da natureza, mas isso não significa que todo sistema de criação seja ambientalmente ou eticamente adequado.

Peixes produzidos em larga escala podem ser submetidos a elevada densidade, seleção genética intensa, transporte inadequado e condições de criação que priorizam produtividade. Isso não torna a aquicultura necessariamente ruim, muito pelo contrário, a reprodução em cativeiro é uma das principais ferramentas para tornar o comércio de determinadas espécies independente da coleta na natureza. Em determinadas situações, porém, pode ser necessário incorporar novos indivíduos aos plantéis para preservar ou ampliar a diversidade genética. Isso pode envolver a introdução de exemplares provenientes de outras linhagens de criação ou, quando apropriado e legalmente permitido, de populações naturais.

2. Então capturar peixes na natureza é errado?

Também não é uma resposta tão simples. A captura de peixes ornamentais pode causar impactos quando realizada de maneira excessiva, ilegal ou destrutiva. Retirar indivíduos demais de uma população pode alterar sua estrutura e reduzir sua capacidade de reposição.

Mas existe uma diferença enorme entre coleta predatória e coleta regulamentada e sustentável. Em determinadas regiões, a coleta de peixes ornamentais representa uma fonte de renda para comunidades locais. Quando realizada de forma controlada, ela pode criar um incentivo econômico para que os ambientes naturais sejam mantidos.

Nesse cenário de bioeconomia, podemos até expandir nossa reflexão e imaginar que o peixe selvagem, por ter sua existência dentro do comércio, pode ajudar a dar valor econômico à floresta, ao rio ou ao igarapé onde ocorre naturalmente.

O problema, portanto, não é simplesmente o fato de o peixe ter sido capturado. Tal simplificação poderia até mesmo causar prejuízos em pontos da cadeia produtiva que não temos claros em nossa mente.

3. Um peixe capturado na natureza pode ajudar a conservar a natureza?

Sim. Parece contraditório, mas considerando o ponto da bioeconomia que levantei, podemos dizer que sim.

Imagine uma comunidade que vive próxima a um ambiente de grande biodiversidade. Se os peixes ornamentais daquele ambiente possuem valor comercial e podem ser coletados legalmente de maneira sustentável, a conservação daquele habitat pode passar a ter também um valor econômico direto. Uma vez reconhecido esse valor, podem surgir incentivos para que a própria comunidade, o poder público e outros atores da cadeia destinem esforços e recursos à manutenção daquele ambiente.

Nesse caso, o peixe deixa de ser apenas um animal retirado da natureza e passa a fazer parte de uma cadeia econômica que pode beneficiar pescadores, coletores, comerciantes e comunidades locais. Mas isso somente funciona quando a exploração é realmente sustentável. Se a demanda ultrapassar a capacidade de reposição das populações, o mesmo mecanismo pode produzir exatamente o efeito contrário.

4. E o peixe criado em cativeiro não contribui para a conservação?

Pode contribuir – e muito. Quando um criador regularizado consegue reproduzir uma espécie em cativeiro, pode apoiar a redução da necessidade de coleta de exemplares selvagens. Isso é particularmente importante para espécies que apresentam populações naturais reduzidas, distribuição geográfica restrita ou características que as tornam vulneráveis à coleta excessiva.

Além disso, a reprodução em cativeiro pode produzir conhecimento sobre a biologia da espécie: comportamento reprodutivo, alimentação, desenvolvimento dos filhotes, parâmetros ambientais e doenças. E por que não considerar que, em alguns casos, populações mantidas sob cuidados humanos podem inclusive funcionar como reservas genéticas ou populacionais? Podem, claro que podem, embora isso não substitua a conservação dos ambientes naturais.

5. Peixes selvagens são mais saudáveis?

Não necessariamente, eu diria até que é complicado fazer afirmações nesse tópico, sem maiores aprofundamentos técnicos. Pode ser que vigore uma ideia de que o peixe selvagem seria naturalmente mais resistente, enquanto o peixe criado em cativeiro seria mais frágil. Transformar isso em uma regra geral seria equivocado. Por quê?

Um peixe capturado pode chegar ao aquário carregando parasitas ou outros agentes infecciosos aos quais estava adaptado ou que adquiriu durante sua vida. Por outro lado, peixes provenientes de criações intensivas podem estar expostos a elevada densidade populacional e às doenças associadas a esse sistema. É ou não é difícil avaliar? Eu acho.

E se considerarmos o transporte então? Capturado ou criado, o peixe passará por mudanças de água, temperatura, oxigenação, alimentação e ambiente. O estresse dessas etapas pode comprometer sua condição fisiológica e aumentar sua susceptibilidade a doenças. O peixe criado, a princípio, disporia de condições sob maior controle – em sistemas bem manejados.

6. Se o peixe foi criado em cativeiro, ele é automaticamente mais adequado para um aquário?

Não. Uma espécie pode ser reproduzida em cativeiro e continuar sendo inadequada para determinados aquários. Tudo aquilo que encontramos nos artigos que escrevo vale aqui, ou seja, o aquarista precisa considerar tamanho adulto, comportamento, necessidade de espaço, qualidade da água, temperatura, alimentação, sociabilidade e compatibilidade com outros organismos.

7. O aquarista deveria preferir sempre peixes criados em cativeiro?

Para muitas espécies, essa pode ser uma excelente escolha. Mas não deveria ser uma regra absoluta.

A questão mais apropriada para o propósito deste texto não é saber, antes de qualquer outra coisa, se o peixe é selvagem ou de cativeiro. Antes disso, porém, há uma pergunta que precisa ser respondida: sua origem e sua comercialização são legais?

E, para finalizar, deixo uma provocação: existe uma resposta certa para cada pergunta? Talvez o maior erro de um debate como este que proponho seja procurar uma resposta universal.

Peixes ornamentais não possuem uma única história. Há peixes cuja reprodução em cativeiro é tão consolidada que não faz sentido retirá-los da natureza para abastecer o comércio. Há espécies cuja reprodução ainda é difícil ou economicamente inviável. Há espécies para as quais a captura representa uma ameaça real. E há sistemas de criação que podem apresentar excelentes práticas de bem-estar, assim como outros que precisam ser constantemente aprimorados.

Por isso, penso eu, o verdadeiro dilema não deveria ser colocado como uma disputa entre “peixe selvagem” e “peixe de cativeiro”. A história toda estaria mais entre a responsabilidade e a irresponsabilidade, até porque somos nós que escolhemos.

E talvez seja justamente essa escolha que transforme o aquarismo de um simples comércio de animais em algo muito maior: uma oportunidade de conhecer a natureza, valorizar sua biodiversidade e assumir responsabilidade por uma pequena parcela dela.

Eu não incentivo a captura de nenhum espécime de peixe nativo, mesmo que para fins pessoais, pois essa atividade possui regramento próprio, com pessoas e empresas registradas para tal. No entanto, não se preocupe, as lojas no país possuem para comercialização a quase totalidade de espécies ornamentais – procure lojistas confiáveis, pois certamente, mais cedo ou mais tarde, você encontrará o peixe que procura (desde que ele seja permitido comercializar).

E é assim que me despeço, agradecendo a você por ler até aqui. Espero ter trazido algo que contribua para o hobby. Vejo você no próximo artigo, que sai já já! Até lá!

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