No artigo passado apresentei os neocaridinas, dei umas dicas de como mantê-los bem no aquário e deixei um gancho para este texto, explicando que nem todo peixe é um bom companheiro para os neocaridinas.
Na ocasião, adiantei que é bom que consideremos que praticamente todo peixe possui algum instinto predatório, mas que felizmente, diversas espécies de pequeno porte apresentavam características que as tornavam compatíveis para a convivência com neocaridinas.
É sobre isso que falaremos neste artigo. Bora ver o que tem pra hoje!
Camarões ou petiscos?
Na minha opinião, para se ter neocaridinas, o início parte da decisão de criar um ambiente amistoso para eles (afinal, muitas variedades possuem valor considerável no mercado) e isso inclui pensar friamente em quem serão seus companheiros de aquário. Especialmente no que concerne aos peixes (os mais comuns habitantes de aquários caseiros), comprar espécies que virão a predar (comer) os camarões, não me parece uma boa ideia.
Em vez de simplesmente listar espécies compatíveis, prefiro mostrar quais características tornam um peixe um bom companheiro para os neocaridinas. Assim, mesmo diante de espécies que não aparecem neste artigo, você será capaz de fazer uma avaliação por conta própria.
Eu destaco as seguintes características:
- Boca pequena: peixes incapazes de engolir camarões adultos (lembro que mesmo peixes herbívoros, caso a boca seja capaz de engolir os camarões, poderão fazê-lo sem aviso prévio). Esta característica aqui está diretamente ligada a peixes diminutos (entre 2 e 4 cm no tamanho adulto).
- Temperamento tranquilo: espécies pouco territoriais ou sem comportamento alimentar muito competitivo.
- Desinteresse pela caça: espécies que passam boa parte do tempo procurando pequenos organismos presentes no biofilme ou na coluna d’água têm menor tendência à caça ativa.
- Hábito alimentar não carcinófago (não come camarão): hábitos alimentares voltados principalmente para algas, biofilme, detritos ou pequenos organismos planctônicos.
- Estratos superiores na coluna d’água ou nichos específicos: peixes que vivem mais na superfície costumam incomodar menos os camarões, peixes que preferem estar grudados nos vidros ou nadar em áreas abertas também. Ou seja, escolher peixes que tenham micro-habitats preferenciais que reduzam a sobreposição espacial com as Neocaridina.
Certamente esses “critérios” tornam-se subjetivos em diversos arranjos. Ainda assim, o intuito aqui é alertar que quanto mais dessas características uma mesma espécie possuir, maior será sua compatibilidade com os neocaridinas – observação: estou considerando que haja alimentação frequente para os peixes, pois isso pesa em como os peixes irão se portar diante dos camarões.
Por outro lado, é certo que camarões se sentindo bem no aquário se reproduzirão e mesmo com todas essas precauções tomadas na escolha dos peixes, a predação dos filhotes de camarão (que medem milímetros), pelos peixes, ocorrerá. Dessa forma, as observações aqui escritas são para associar aos camarões peixes “menos interessados”, o que diminuiria a pressão da predação. A outra parte que visa preservar filhotes – e adultos – está no grande pulo do gato: o layout.
Um dos tópicos mais importantes a ser considerado num aquário que virá a receber neocaridinas. O layout deve criar um ambiente estruturalmente complexo, combinando plantas, troncos, raízes, pedras, folhas secas e outros elementos que ofereçam esconderijos.
Plantas, muitas plantas, é o que recomendo. Não somente para que em suas folhas haja mais superfície para a criação do biofilme que lhes servirá de alimento, mas também para protegê-los. Um aquário pouco plantado praticamente condena os filhotes. Um único tufo de musgo pode esconder dezenas de filhotes, deixando-os “completamente invisíveis” aos peixes. Todas as plantas são bem-vindas, mas sugiro mesclar as que formam tufos, carpetes e moitas, como musgos ou Riccia.
Isso não é tudo. Esses camarões não devem ser postos em aquários recém-montados. É necessário que tenham alguns meses de estabilidade, ou seja, filtros funcionando bem, com a biota estabilizada e livre de doenças, e áreas onde já estejam crescendo algas (biofilme).
Os companheiros
Enfim chegamos ao ponto: os peixes compatíveis. Como podemos já deduzir, pela quantidade de critérios e detalhes, não basta escolhermos tipos (famílias) de peixes, como caracídeos, poecilídeos etc., precisamos mesmo é selecionar pontualmente quais as espécies de peixes que podem. É errado afirmar que a família de peixes A ou B pode conviver sem problemas, pois nelas os peixes são bem distintos.
Como exemplo, a família a que o guppy pertence (Poecilidae), ao mesmo tempo que tem o Endler (Poecilia wingei), apto a viver com neocaridinas, tem a Molly (Poecilia sphenops) ou o Platy (Xiphophorus maculatus), com bocas proporcionalmente maiores e hábitos de comer os próprios filhotes – estes não seriam boas escolhas. O mesmo vale para os killifishes, barbos, dânios, ou seja, todos.
Dentre a miríade infindável de possibilidades, começo com 3 dos mais queridos, a fim de mostrar como, a partir de suas características, eu os escolhi:
Olho-de-lâmpada (Killi Lampeye)

O Lampeye (Poropanchax normani) é um pequeno peixe africano que raramente ultrapassa 4,5 cm de comprimento. Seu maior destaque são os olhos com um intenso brilho azul-metálico, que parecem refletir a luz, característica responsável por seu nome popular.
Na natureza, habita pequenos rios, córregos, brejos e áreas alagadas densamente vegetadas, vivendo próximo à superfície da água. Trata-se de um peixe pacífico, gregário e fácil de manter em aquários, desde que seja criado em cardumes de pelo menos oito indivíduos. Prefere águas tropicais entre 22 e 26 °C, levemente ácidas a neutras (pH entre 6,5 e 7,2).
Alimenta-se de pequenos invertebrados, larvas de insetos e zooplâncton na natureza, aceitando facilmente rações, alimentos vivos e congelados em cativeiro. Por também possuir um comportamento tranquilo, é uma excelente opção.
Rásbora Mosquito

A rásbora-mosquito (Boraras brigittae) é uma das menores espécies de peixes ornamentais de água doce, medindo em torno de 2 cm quando adulto. De comportamento extremamente pacífico e gregário, deve ser mantido em cardumes, condição que favorece seu bem-estar, reduz o estresse e intensifica sua coloração. Na natureza ocupa principalmente a meia água e as regiões próximas à superfície, deslocando-se entre a vegetação marginal em busca de microcrustáceos, zooplâncton, larvas de insetos e outros pequenos invertebrados. Em aquários aceita facilmente alimentos secos de granulometria reduzida, mas apresenta melhor desenvolvimento quando sua dieta é complementada com alimentos vivos ou congelados de pequeno porte. Seu diminuto tamanho, boca reduzida e temperamento tranquilo fazem da espécie uma excelente escolha.
Para sua manutenção, recomenda-se um aquário densamente plantado, com iluminação moderada, água limpa e estável e abundância de refúgios entre musgos e plantas de folhas finas. A espécie adapta-se melhor a temperaturas entre 23 e 28 °C, pH entre 4,0 e 7,0 (preferencialmente em torno de 5,5 a 6,5) e dureza de 1 a 10 dGH, reproduzindo as características das águas negras de seu habitat natural.
Rásbora neon verde

A Rásbora neon verde (Microdevario kubotai) é um pequeno ciprinídeo que habita riachos rasos, de águas claras e bem oxigenadas, com correnteza moderada, vegetação marginal e fundo composto por areia, cascalho e rochas. Com comprimento máximo em torno de 2 cm, destaca-se por possuir comportamento gregário (preferencialmente com dez ou mais indivíduos), condição que proporciona maior segurança, reduz o estresse e favorece a exibição de seu comportamento natural.
Trata-se de uma espécie extremamente pacífica e ativa, que ocupa predominantemente a meia água, utilizando constantemente os espaços livres entre a vegetação para nadar. Na natureza alimenta-se de pequenos organismos aquáticos, como zooplâncton, microcrustáceos, larvas de insetos e outros invertebrados microscópicos, enquanto em aquário aceita prontamente alimentos industrializados de granulometria reduzida, embora demonstre melhor desenvolvimento e coloração quando sua dieta é complementada com alimentos vivos ou congelados. Seu pequeno tamanho, boca diminuta e baixa agressividade fazem com que seja uma excelente opção.
Para sua manutenção, recomenda-se água limpa e estável, com temperatura entre 22 e 28 °C, pH de 6,0 a 7,5 e dureza entre 2 e 15 dGH, parâmetros que reproduzem adequadamente as condições encontradas em seu habitat natural e favorecem seu desenvolvimento.
Sei que já me estendi demais no texto, mas antes de passar para o momento de despedida, posso adiantar outras criaturas incríveis, como o limpa-vidro (Otocinclus affinis), a corydora anã (Corydoras hastatus, atualmente classificada como Gastrodermus hastatus), killifish palhaço (Epiplatys annulatus) e o famoso Endler (Poecilia wingei). Eu os selecionei da mesma forma com a qual escrevi as características e, claro, confirmei essas escolhas consultando relatos consistentes de aquaristas experientes e referências especializadas.

Mesmo com todo esse cuidado, na prática, não há um selo do tipo “shrimp safe” colado nos peixes que recomendei; e se houvesse significaria apenas que a espécie oferece baixo risco aos camarões, não uma garantia absoluta de convivência sem perdas.
No fim das contas, manter neocaridinas com peixes se trata da combinação de espécies adequadas, peixes bem alimentados, um aquário maduro e um layout rico em plantas e esconderijos. Quando esses fatores trabalham juntos, camarões e peixes convivem de forma equilibrada.
No próximo artigo, continuarei essa seleção apresentando outras espécies bastante compatíveis com neocaridinas, além de explicar por que alguns peixes populares, apesar da fama de pacíficos, nem sempre são boas escolhas para juntar aos camarões.
Agradeço a leitura, esperando ter trazido algo positivo para o hobby. Aguardo você no próximo, que sai já já! Até lá!

Com Bravo de Bravura, e não de Braveza, Johnny Bravo (João Luís), escreve para revistas especializadas e para o blog da Sarlo há um cadim de tempo. Nessa jornada Julioverniana, após 20 Mil Léguas de textos, agora ele também desenvolve os roteiros para os vídeos de chamada do Sarlocast, onde você pode ouvir a sensual voz desse aquaman (tradução: homem de aquários).

